15 Março, 2012

A Estação do Sr. Abeba

Durante a curta estadia em Adis, resolvo fazer uma visita à estação de caminhos-de-ferro – um edifício belo, de traços coloniais e amarelo baço – e fico à conversa com três dos seus funcionários. Apesar de há mais de dois anos não haver qualquer serviço de passageiros ou qualquer actividade ferroviária, os funcionários continuam a dirigir-se diariamente para os seus postos de trabalho, ainda que não haja nada mais que fazer do que esperar o ordenado no final do mês.

O senhor Abeba – chefe da estação – um homem simpático e bem-disposto, conta-me um pouco da história da companhia; a linha foi inaugurada em 1917 contando a sua construção com capital francês, tendo sido criada a ‘Compagnie Impériale du Chemin de Fer Franco-Éthiopien’, o que justifica o emprego do francês em todo o layout das estações, neste país que nunca foi colonizado. Nos anos 50, aquando da visita de Elizabeth II à Etiópia, Selassie recebeu de presente da rainha uma luxuosa composição presidencial, provida de ar condicionado, algo completamente inovador para a época;

- Foi o único país africano que a rainha visitou! Saiu daqui, esteve três horas em Nairobi e voo de regresso a Londres – conta Abeba com orgulho por entre gargalhadas e insinuações de um eventual caso amoroso entre a rainha e o imperador Etíope, que terá posteriormente viajado para Inglaterra cerca de 15 vezes, diz-me…

Recentemente os comboios deixaram de circular por profundas deficiências na linha. Da União Europeia surgiu um compromisso de ajuda, mas em dois anos, com todas as exigências de democracia e atrasos nas obras, os chineses tomaram o seu lugar e em menos de um ano construíram cerca de 300Km de linha – ainda que Abeba reconheça serem de qualidade duvidosa – a contrastar com os cinco deixados pelos europeus.

Antes de me despedir, o senhor Abeba – percebendo a minha paixão pelo universo ferroviário – leva-me a visitar o seu escritório; um mini museu ferroviário, repleto de fotografias da inauguração da linha e de pequenos presentes que vai recebendo de outros entusiastas um pouco por todo o mundo, e como lembrança de despedida, oferece-me antigos bilhetes dos comboios que em tempos por aqui circulavam.

06 Março, 2012

Timkat em Aksum

Depois de quatro dias de caminhada nas Simien Mountains, regresso à aldeia de Debark – no sopé da montanha – para me encontrar com o funcionário do centro de acolhimento a visitantes e que me havia prometido estadia em sua casa para quando regressasse. Aagniche, seu amigo e guia de montanha, leva-me ao quarto e promete encontrar-me um camião ou conseguir um bilhete no autocarro de amanhã para Aksum, que regra geral, já vem cheio desde Gonder.

O quarto é uma pequena habitação numa espécie de condomínio, com uma casa de banho comum, que não é mais que um buraco coberto com troncos de madeira na qual deixaram uma pequena abertura. Não há chuveiro e a única forma de tomar banho é utilizando uma grande bacia metálica, o que me faz lembrar os westerns dos anos 80.

Volto a encontrar Aagniche na manhã seguinte e após algumas tentativas frustradas de conseguir um camião que me leve a Aksum, consegue convencer o revisor do autocarro a vender-me um bilhete e pelo preço normal – algo muito difícil de conseguir, como infelizmente venho a comprovar!

À chegada a Shire – enquanto procuro por uma ligação a Aksum – reencontro Ralf, um Irlandês a viver em Londres, que todos os anos escolhe um único país para viajar nos primeiros dois meses do ano, e com quem me havia cruzado em Debark no dia anterior.

Ralf é de um sentido de humor incrível! No final de cada refeição dizia satisfeito ao funcionário de serviço; ‘quem me dera que a minha mulher cozinhasse assim! Ela é a mulher mais bonita do mundo e estamos juntos há 18 anos, mas na primeira semana tive de lhe dizer: - por favor, não cozinhes mais!’

Chegamos a Aksum na véspera do Timkat (Epifania), as celebrações do baptismo de Jesus e a segunda maior festividade do calendário da Igreja Ortodoxa Etíope depois do Natal – a que chamam Leddet e que aqui ocorre entre 6 e 7 de Janeiro.

No que respeita ao calendário, a Etiópia é na verdade um universo à parte, possuindo o seu próprio calendário e sistema de hora, com uma diferença de 8 meses e 8 dias para o tradicional calendário romano. O Ano Novo, por exemplo, celebra-se a 11 de Setembro… Têm13 meses num ano – todos com 30 dias e um último apenas com 5 (ou 6 de 4 em 4 anos) – e no que toca a horas; às nossas 7 da manhã são 1 da manhã e às nossas 19 é 1 da noite, tendo esta contagem que ver com o momento em que o sol nasce e se põe.

O único momento em que a Arca é apresentada em público é durante o Timkat. Por estes dias as ruas enchem-se de gente em cânticos e orações, numa cortejo colorido e animado, e que alguém no posto de turismo chegou a descrever como parecido com um Carnaval.

Homens de ar solene esperam alinhados em frente à igreja a chegado do ‘alto patriarca’ enquanto a procissão religiosa se organiza. A bandeira da Etiópia lidera uma comitiva de homens de hábitos vermelhos, defendidos por uma espécie de guarda-sol de cor e ornamentos idênticos. Cornetas ecoam no ar e uma multidão agitasse para ver a passagem da Arca. Mulheres de manto branco, jovens de uniforme púrpura e amarelo, tambores e altifalantes, cantam e dançam num frenesim quase de transe pelas ruas da cidade em direcção a um dos mosteiros, onde uma piscina improvisada se encheu para a bênção do dia seguinte.

Nessa manhã, a Arca é trazida até junto à água – completamente barrenta – onde uma multidão aguarda em redor e assim que esta é benzida, todos saltam para dentro da piscina, espalhando água por quantos se encontram em volta e enchendo garrafas que levam para casa e vão partilhando pelo caminho.

No meio de tanta euforia, um dos jovens que havia saltado para dentro da piscina acaba por falecer afogado e no dia seguinte, muitos são aqueles que procuram em vão resgatar o corpo ou esperar que este acabe por vir à superfície…

No entanto, Aksum é um lugar tranquilo e verdadeiramente agradável e depois das celebrações do Timkat, tudo parece voltar à normalidade. A sua avenida principal está repleta de pequenos cafés onde se joga pool – aparentemente um dos ‘desportos nacionais’ a par dos matraquilhos e do pingue-pongue – bares de sumo natural de frutos, lojas e cervejarias decoradas com as cores da respectiva companhia cervejeira.

Naquela que parece ser a praça central da cidade, debaixo de uma enorme e frondosa figueira, um mercado de cestos tradicionais e coloridos tem lugar, e na esplanada de um dos cafés que a circundam, debaixo do alpendre onde costureiros sentados às suas máquinas e engraxadores de sapatos se arruam, contemplo o passar de burros e camelos, e o ritmo calmo com que tudo tem lugar.

19 Fevereiro, 2012

O Sudão de que não falam as notícias...

Wawa não é mais que um pequeno conjunto de casas perdidas na margem Este do Nilo.

Depois de deixarmos a fronteira, eu e Franz – o austríaco que comigo viajou no ferry desde Assuão – seguimos à procura do Templo de Soleb, situado na margem oposta deste minúsculo aglomerado de casas construídas sobre a areia e onde miúdos de pé descalço e roupa manchada de tanta brincadeira, correm ao nosso encontro pedindo por canetas, e eu fico impressionado com a simplicidade com que uma simples caneta pode deixar estes miúdos felizes, e sinto-me agradecido por estar aqui.

São elas mesmo que nos conduzem até à lukanda local – um tipo de acomodação simples, que muitas vezes não passam de um colchão numa simples cama de ferro, mas porventura, o único tipo de serviço que os sudaneses conseguem pagar.

A noite cai tranquila. Não há restaurantes, lojas de conveniência ou o que quer que seja onde possamos comprar comida, mas os nosso anfitriões parecem ter adivinhado a nossa chegada e a nossa fome, e pouco tempo depois vemo-los chegar, carregando sacos de pão e lentilhas com que nos deliciamos à ténue luz da lua que se acendeu sobre o pátio aberto para as estrelas, deste hotel no meio do nada.

A manhã seguinte desperta na quietude deste quintal à beira rio, povoado por homens montando burros e mulheres que mal se distinguem por entre o verde de um jardim de legumes e palmeiras.

O Sudão é tudo aquilo que as notícias não contam! Um lugar seguro, belo e sem dúvida, o país com as pessoas mais afectuosas que encontrei até agora! Pessoas de trato fácil, que nos tomam como iguais – não como turistas endinheirados! – que nos guiam pelas ruas quando precisamos de ir a algum sitio ou que correm ao nosso encontro se nos esquecemos de alguma coisa no seu café ou restaurante; que nos dão boleia para onde queremos ir mesmo que esse não seja o seu destino; pessoas que me oferecem uma corrida de táxi dizendo que sou convidado; que me oferecem tremoços quando os tento comprar; que pagam o autocarro quando explico que quero seguir à boleia e que se param no caminho fazem questão de oferecer um chá.

A paisagem de desertos, oásis e povoações de mercados coloridos é absolutamente deslumbrante! Além disso o Sudão tem mais pirâmides que o Egipto, ainda que mais pequenas e em pior estado de conservação. Karima e Neru são dois dos locais onde é possível encontrar estas pirâmides Núbias e ao contrário do Egipto, estas não estão cercadas por muros altos ou qualquer vedação, ainda que se tenha de pagar para as ver, mesmo que isso seja possível da estrada… a grande maioria foi completamente lapidada por exploradores sem escrúpulos e saqueadores que acreditavam haver ouro no topo de cada pirâmide. Ainda assim, a experiência de caminhar por entre este sólidos ancestrais – que mais parecem castelos de areia feitos por crianças na praia e onde o quotidiano habitual não sofreu qualquer perturbação turística ou especulativa – nada fica a dever ao Cairo.

Em Nuri por exemplo, fico com a certeza de que se o camelo é o animal do deserto, o burro é o animal do oásis. Carroças puxadas por estes animais circulam por todo o lado e apanhar boleia numa delas faz de nós verdadeiras atracções para as pessoas locais que riem à nossa passagem.

O único inconveniente do Sudão é mesmo a burocracia. De cada vez que chegamos a uma nova cidade para pernoitar, é necessário ir à esquadra da polícia local para um registo e, em todos os check-points de estrada, mostrar a ‘permissão de viagem’ que aparentemente deveríamos ter em cópia para deixar com a polícia. Mas mesmo aí, as pessoas são prestáveis e simpáticas, procurando sempre ajudar, como aconteceu num desses check-points de estrada – quando já parecia ser impossível conseguir uma boleia – onde a polícia fez parar um camião, explicando o que pretendíamos e para onde nos dirigíamos.

Já sozinho, a última dessas boleias leva-me até Kassala. Um lugar simplesmente atordoante!

Com mais de 400 mil habitantes, é uma das maiores cidades do Sudão e ponto de encontro de todas as tribos da Núbia. Palco decorado na perfeição pelas montanhas de Taka que a rodeiam e que no meu imaginário é um retrato de África. Como se todo um continente se encontrasse aqui.

A proximidade com a Eritreia faz destas ruas um enorme souk a céu aberto, onde as personagens mais desconcertantes se cruzam; homens de espada; indivíduos de roupas andrajosas; tribos que se caracterizam por andar constantemente com um pente pendurado no cabelo ou mulheres de enormes brincos ao nariz provenientes da Eritreia, de trajes coloridos ou debruados a um amarelo forte e mãos pintadas, formam um mosaico estonteante de cor e exotismo, que vendedores de fruta, vegetais e frutos secos ajudam a compor.

Ainda que sob um calor abrasador, Kassala é o sítio ideal para terminar a visita ao Sudão deixando-nos perder e pelas suas ruas agitadas, parando para um café picante da Eritreia num dos seus inúmeros cafés, ou espreitando por entre os edifícios e portas entreabertas, onde sem querer se descobre um cinema improvisado, onde uma pequena multidão assiste à matiné de Domingo.

30 Janeiro, 2012

Cairo, Excitante Cairo, Apaixonante...

O Cairo é sem qualquer redundância, a cidade que nunca dorme. Ruas de lojas super iluminadas e restaurantes de comida rápida, bem como alguns cafés, estão abertos 24 horas por dia.

No hostel conheço Amir, Côcô, Kira e Atle, todos de procedências distintas e que me convidam para uma noitada.

Amir é suíço mas com descendência sudanesa e a facilidade em falar árabe, faz dele nosso guia pelas ruas da cidade. Atle por sua vez é sueco e há dois meses que está estacionado no Cairo onde suspendeu os seus planos de viagem pela Ásia, precisamente de onde vem Côcô, que apesar da ausência de uma mão, se encontra numa volta ao mundo em bicicleta desde Taiwan, algo que Kira está igualmente a fazer, mas de avião.

Um concerto de música rock e um club de Jazz que muita concorrência faria a qualquer bar ou discoteca em Portugal, são tudo aquilo que não esperava encontrar logo na minha primeira noite no Cairo. Ainda por cima, uma free night, significando isso que tudo é oferta dentro do bar, algo que nunca tinha visto em Portugal!

Apesar de não constarmos de qualquer guest list, o porteiro diz que abrirá uma excepção para nós. Mesmo não sendo o tipo de sítio que gosto de frequentar enquanto viajo, não deixa de ser curioso constatar que não há quaisquer restrições de indumentária ou comportamento, podendo assemelhar-se com qualquer bar europeu.

Aos poucos vou-me habituando à confusão da cidade.

Numa dessas noites saio sozinho para um chá num típico café de Shisha. Está apinhado de gente que joga gamão ou dominó, fuma shisha ou simplesmente troca dois dedos de conversa e as mulheres fazem igualmente parte deste ambiente, partilhando o mesmo espaço e comportamentos dos homens.

As ruas recônditas onde estas expressões sociais têm lugar, têm uma luz de bairro apaixonante e o ambiente cosmopolita e local é magnífico. A música de fundo e o interminável buzinar do trânsito do Cairo, que mais do que outra coisa parece um passatempo nacional, compõem o cenário.

Subitamente surge um miúdo ´fakir’ que brinca literalmente, com o fogo, fazendo apagar duas tochas em chamas com a boca.

Toda a cidade é um circo de cor, luz, som e exotismo.

Depois de um fim-de-semana as voltas pelo Museu do Cairo e pelas ruas da cidade, é altura de procurar pelo visto para o Sudão e posteriormente para a Etiópia. Supostamente o visto sudanês é extremamente moroso, burocrático e dispendioso e é com esse sentimento que me dirijo à embaixada, cruzando uma praça Tahrir completamente tranquila e onde já só restam algumas tendas montadas a um canto da praça, pouco restando que lembre a revolução de Janeiro ou dos incidentes de Novembro.

O aspecto da embaixada do Sudão é de uma garagem cheia de gente.

A entrada faz-se por um portão de correr ferrugento. Há três guichés e uma fotocopiadora a um canto da sala com um funcionário próprio e onde também é possível tirar fotos, como rapidamente venho a constatar, resolvendo in loco todas as necessidades burocráticas exigidas. Na verdade – e apesar do aspecto ‘pré-histórico’ do local – o serviço parece bastante eficiente. Vou precisar de fotocópias do passaporte e do formulário de requisição do visto e de duas fotografias, e o que é certo é que consigo obter tudo isso em 10 minutos e no mesmo local.

Nas paredes desta ‘garagem promovida a embaixada’, vitrinas com comida e artefactos que deduzo serem parte do quotidiano do país, decoram as paredes.

As pessoas presentes na sala são de uma África que ainda está para se me revelar. Faces e trajes completamente diferentes das que se podem ver nos egípcios, que tão pouco se consideram parte de África.

Mas antes de tudo isto sou informado da necessidade de uma carta de recomendação da minha embaixada no Cairo.

Apanho um táxi e ando às voltas pela ilha Zamalek em busca de um pedaço de Portugal no Egipto e que apesar de me disponibilizarem a carta relativamente rápido, me cobram 25 euros pela mesma… nada melhor para me sentir em casa!..

De volta à embaixada do Sudão, o funcionário de serviço junto à fotocopiadora diz-me para me colocar junto à parede e com uma maquina fotográfica compacta, tira três fotos que passa para o computador, deixando-me escolher de entre as três antes de as recortar pelo rosto e mandar imprimir, tudo de forma muito ‘caseira’ mas convenhamos, eficiente.

Completos todos os requisitos, mandam-me regressar no dia seguinte. Como não acredito que esteja pronto volto apenas dois dias depois e na verdade verifico que o visto apresenta a data do dia em que o solicitei, significando isso muito provavelmente que de facto já estava pronto no dia anterior.

O funcionário entrega-me o passaporte e eu nem quero acreditar;

- Já está?! Já tenho o visto?!

- Sim! Pode comprovar…

Poucos dias depois da ida à embaixada do Sudão, a situação na praça Tahrir volta a agitar-se. Aparentemente, um suposto manifestante que pacificamente protestava sentado no meio da rua impedindo a passagem do carro do Ministro do Interior, foi puxado pelas forças militares e agredido brutalmente, ali mesmo e sem qualquer explicação.

O povo quer o poder nas mãos do povo e exige um governo de transição e união nacional enquanto o demorado processo eleitoral decorre.

Depois destes incidentes os protestos intensificam-se e a brutalidade com que o exército reage também. Quando investe sobre os manifestantes é de arma apontada e sem qualquer sentido de ordem. Não importando se é homem, mulher ou criança, se está indefeso ou não…

A Tahrir está sempre repleta de gente e à medida que as noticias e espalham mais gente ainda se junta em solidariedade e protesto. Pelas ruas do Cairo – e já não apenas na praça – manifestações sucedem-se reclamando a transição de poder e grupos de mulheres protestam igualmente contra a forma selvagem com que o exército tratou uma mulher, semi-despida e aparentemente inanimada, num dos dias de protesto.

Uma das mais importantes bibliotecas do Cairo foi incendiada.

Num desses dias conheço um jovem veterinário egípcio e que se mostra completamente desapontado pelo rumo que os protestos estão a levar. Acha que há mão da mossad ou da CIA por detrás deste despoletar de violência e na verdade, quando se circula pela praça, somo varias vezes interrogados sobre de onde somos e o que fazemos ali, num clima de verdadeira desconfiança.

Para impedir o avanço dos manifestantes, o exército vai levantando muros de blocos de betão, encerrando algumas das principais artérias da cidade. Num dos dias de avanço sobre os manifestantes, removeram e queimaram todas as tendas que ainda restavam na praça mas, como se pode ler em algumas t-shirts à venda em redor da praça; ‘o poder das pessoas é mais forte que as pessoas no poder’ e as tendas estão de volta ao centro da praça, numa demonstração de força e determinação admiráveis. Recusam desmobilizar e eu acho fantástica a forma como estas pessoas lutam por aquilo em que acreditam!

As eleições prosseguem e segundo me contam, há uma felicidade contagiante em cada mesa de voto por todo o Egipto. Uma alegria espelhada nas faces de um povo que vê finalmente uma oportunidade para escolher livremente o seu futuro. Contudo, todo o processo levará meses e é extremamente difícil de compreender como Ernesto – um uruguaio a viver em Luxor há mais de 1 ano – me explica, dizendo que nem ele entende muito bem todo o processo, quanto mais estas pessoas que na sua maioria são analfabetas. Na verdade, há mais de 40 partidas a concorrer a estas eleições e é possível verificar nos cartazes eleitorais, que cada partido tem um símbolo pelo qual pode ser reconhecido por quem não sabe ler, sendo assim possível votar no ‘partido da bola’ ou no do ‘trator’, apenas para referir alguns.

Enquanto tudo isto decorre o povo no Cairo, porque aparentemente no resto do pais a informação não chega da mesma maneira e nem os festejos pelo derrube de Mubarak parecem ter sido particularmente efusivos, exige que o exercito transfira o poder para as mãos dos civis. A sensação é de que o exército tem imenso poder do qual não se quer abrir mão. Talvez a queda de Mubarak tenha sido apenas fruto da pressão militar para o substituir porque, como me conta uma espanhola a residir no Cairo há mais de 4 anos; o exército não nutria particular simpatia por Mubarak e além disso este já não duraria muitos mais anos no poder devido à sua idade e aos seus problemas de saúde. Os três últimos presidentes egípcios foram todos generais e esta talvez fosse a oportunidade esperada para fazer cair Mubarak e substitui-lo por alguém da sua preferência.

O exército no Egipto tem tanto poder que detém 40% da economia do país, sendo detentora de negócios por conta própria como fábricas, lojas e até mesmo gasolineiras onde emprega os recrutas como mão-de-obra barata.

Há duas semanas que espero por uma encomenda vinda de Portugal. Os meus companheiros no hostel – especialmente Atle, que há dois meses anda por aqui e que já tentou por mais de uma vez receber um novo cartão de credito vindo da Suécia – dizem-me que será muito difícil receber o que quer que seja pois o serviço postal alem de pouco eficiente é extremamente corrupto.

Os dias vão-se passando sem que haja novidades. Em Portugal tinham-me informando que demoraria cerca de cinco dias úteis mas esses há muito que já caducaram e eu resolvo ir à procura por todas as estações de correio.

Ao segundo dia de procura – depois de me terem informado do local que recebia toda a correspondência vinda de fora do pais – tenho finalmente informação de que a encomenda de encontra cá e que foi enviada no dia anterior para uma outra estação, o que demorará – uma distancia de 20 minutos a pé! – dois ou três dias… É fim de semana natalício e tenho a sensação de poder estar para receber um presente de natal depois de todos estes dias de espera…

Durante esta ultima semana em que estive quase para desistir de esperar pela encomenda e seguir para sul, reencontro Matt e Tom que acabam de chegar ao Cairo. Quando os encontro estão na companhia de um casal polaco a fazer a mesma viagem que nós e dizem-me que no dia anterior tinham conhecido três outros sul-africanos que terminaram aqui a sua jornada de bicicleta desde a Cidade do Cabo e com quem ficaram de se encontrar ao final do dia para celebrar tal acontecimento.

Nessa noite, juntos comemorando o fim da viagem desses três novos companheiros – que deixam a promessa de retribuir quando eu chegar à Cidade do Cabo – Matt e Tom desafiam-me a ficar por mais uns dias e a passar com eles o Natal, o que me parece a melhor das ideias.

Enquanto estico os dias há espera do natal, Amir convida-me para o acompanhar num treino de capoeira que um professor francês disponibiliza num ginásio bem perto do hostel onde estamos. No final do treino, do qual fui apenas espectador, conheço Nico, um uruguaio há meio ano no país em serviço para uma ONG espanhola e que espera hoje mesmo a chegada de um amigo de Maiorca.

A minha facilidade para falar espanhol gera empatia entre nós, até porque Andres não fala nada de inglês. Surpreendentemente, há pessoas com quem falamos pela primeira vez, mas que é como se fossem nossos amigos desde sempre, e este é um desses casos. Numa dessas noites, são eles que me convidam para uma pequena caminhada nocturna na companhia de Vera, uma amiga espanhola que há quatro veio para o Cairo, onde casou e reside, e que conhece cada recanto deste labirinto de bazares, mesquitas, cheiros, cores e sons, e que sentiu de perto a turbulência dos dias da revolução, tendo sido forçada a mudar-se para casa de um familiar do marido, ele também, bastante activo nos movimentos revolucionários.

Ao hostel por estes dias chega também Josh. Um alemão que veio à boleia desde Hamburgo, e para onde pretende regressar da mesma maneira, e se recusa revelar a idade dizendo apenas;

- Sou um cidadão do mundo! Sem idade ou nacionalidade.

Josh é ele também um apaixonado pelo mundo árabe, e depois de umas lições na Alemanha, partiu para Sumatra – no Iémen – para trabalhar com uma ONG tendo ficado completamente enamorado pelo país e pela sua gente.

Na noite da sua chegada ao Cairo está a festejar 100 dias de estrada e saímos para uma cerveja a que se juntam uns amigos egípcios. Durante a conversa, Josh diz não aceitar que se defina a revolução egípcia como ‘revolução de Facebook’, ainda que reconheça a importância que essa ferramenta representou durante esses dias e na qual, muitos iemenitas fizeram circular as mensagens que os amigos egípcios não tinham como publicar.

O fim-de-semana natalício chega por fim. É a primeira vez que passo o natal fora de casa mas a companhia não podia ser melhor! E para se juntar à festa acaba de chegar Thami, um outro sul-africano que aqui termina também a sua viagem – by any means – e Steve, um inglês a dar formação militar no Iraque, e que para provar como o mundo é minúsculo, me pergunta se conheço o Pedro (‘on the road’), um outro português que acaba de regressar de uma viagem de ida e volta à boleia até Singapura e que para além de nos conhecermos frutos das nossas voltas é quase meu vizinho, e que Steve alojou por uns dias no Iraque;

- O Pedro?! Claro que conheço…

À falta de uma boa ‘farrapeira’ para o jantar do dia 25 – até porque o jantar do dia anterior foi frango (e por ser dia de festa!) – Matt e Tom encarregam-se de um risotto, e de gorro vermelho na cabeça, voltamos a despedir-nos num longo abraço, com a promessa de reencontro.

01 Janeiro, 2012

Encontros Improváveis!

A pensão que consegui em Taşucu não tem água quente! A manhã é fria e por mais que espere de torneira aberta, a água não vai aquecer mais do que o tempo lá fora!.. tomo um banho gelado e ponho-me desperto para o resto do dia, que na verdade, se avizinha longo.

Enquanto aguardo na fila para comprar bilhete rumo à ilha de Chipre, dois tipos de aspecto forasteiro, cabelo loiro e olhos azuis, aproximam-se aparentemente com as mesmas dúvidas.

Matt e Tom chegaram ontem com a ideia de seguir para o Chipre mas tal como eu acabaram em terra. São sul-africanos e há sensivelmente 150 dias que saíram da Cidade do Cabo com destino a Londres – onde Tom tem família – para fazerem todo o caminho de regresso a casa, de bicicleta e pelo mesmo caminho que eu.

De bilhete na mão aguardo a vez deles, mas a ausência dos respectivos passaportes obriga-nos voltar mais tarde e enquanto isso regressamos à pensão onde passaram a noite para ‘empacotar’ tudo em cima das bicicletas e então regressar.

O contraste entre as nossas bagagens é colossal! Eu que não carrego mais que uma mochila de 35litros, com duas ‘orelhas’ de lado que juntas devem perfazer pouco mais de 5litros extra, fico impressionado com a quantidade de coisas espalhadas pelo quarto e que eles vão arrumando para depois carregar nas bicicletas, num processo quase mecânico. Uma viola, um saco cheio de livros e uma infindável quantidade de outras coisas que eu não sonharia sequer poder carregar.

Depois de tudo ensacado e na companhia de um chá oferecido pelo proprietário da pensão, fico a vê-los carregar as bicicletas enquanto continuamos as apresentações;

Tom tem 24 anos e terminou história, política e vídeo – uma estranha combinação! – enquanto Matt, um ano mais novo, terminou economia e finanças. Após concretizarem os estudos no final do ano passado, trabalharam durante 6 meses para amealharem o suficiente para esta viagem e se fazerem à estrada. Apesar de ainda nem sequer irem a meio – tencionam chegar à Cidade do Cabo no natal de 2012 – já falam em planos para uma nova aventura de rikcho pela América do Sul ou de kayak pela costa oriental da Índia até à Indonésia.

Sinto de imediato empatia por estes novos companheiros – afinal de contas estamos nas mesmas circunstâncias, com o mesmo percurso e pressuposto – e até mesmo um certo fascínio pela viagem que empreenderam (por mais que eu esteja numa situação algo semelhante).

Voltamos à agência para comprar os bilhetes em falta e a funcionária informa que temos de estar no porto duas horas antes da saída do barco.

Faltam umas 12 longas horas e nada mais resta que não seja esperar…

Instalamo-nos no restaurante adjacente que oferece ‘free wi-fi’, e enquanto nos acomodamos, um outro viajante de feições ‘centro-europeias’ junta-se a nós.

Andreas é austríaco e acaba de regressar de Van – na parte oriental da Turquia – com fotografias impressionantes do terramoto que há poucos dias varreu toda a região, provocando avultados prejuízos materiais e causando um ainda indeterminado número de mortos.

Andreas tem 40 anos e é funcionário dos correios. Conta-nos que foi jogador de ténis de mesa durante vários anos, competindo a grande nível e ao que parece, não se saindo nada mal! Aparentemente, todos os anos faz uma viagem de cerca de 1 mês em busca do sol que já não consegue encontrar por esta altura na Áustria, mas com o tempo que se tem feito sentir por aqui, mostra-se frustrado por este ano o termómetro não estar do seu lado…

Depois de alguns minutos de conversa, resolve juntar-se a nós no barco desta noite para o Chipre.

As horas vão passando lentamente entre dedos de conversa e sopa de lentilhas… Andreas fica completamente surpreendido com os nossos planos de viagem e incrédulo ao revelarmos a intenção de cruzar países ‘tão perigosos’ – diz ele – como o Sudão. Em contrapartida, os três mostramo-nos frustrados pelas informações e referências que a maioria das pessoas tem sobre determinado país ou região, serem apenas fruto do mediatismo da comunicação social e não de um conhecimento minimamente esclarecido da realidade dos locais e do povo que os habita.

Manhã alta quando desperto, já o barco prossegue mar adentro.

Apenas Andreas se encontra ainda na sala onde dormimos e diz-me que os outros companheiros estão no convés e eu subo à sua procura ainda meio ensonado. Estão sentados na companhia de Amir, um turco pouco dado às regras do mundo muçulmano e que, mesmo sendo ainda manhã, partilha a metade de uma garrafa de whisky com Matt e Tom, convidando-me igualmente a fazer parte desse pequeno-almoço ‘pouco ortodoxo’. Como parece não ser suficiente, Amir faz questão de oferecer uma cerveja a cada um de nós enquanto o barco avança lentamente em direcção à ilha e Andreas se anima pelo sol que finalmente resolveu ser solidário para com ele.

Após doze horas de espera e outras tantas depois de ter entrado no ferry, estou finalmente no Chipre, mais concretamente na auto-proclamada Republica Turca de Chipre do Norte. Matt e Tom vão seguir para Larnaca – no lado sul – onde são esperados por um CS e de onde 2 dias depois têm voo para a Jordânia. Andreas por seu lado quer ficar por aqui e vai à procura de um hostel que tem referenciado, 6Km para o interior da ilha, enquanto que eu não faço a mínima ideia do que fazer… ficar ou seguir directamente para Nicosia…

Troco um último abraço com os meus companheiros de viagem e sigo em direcção ao centro de Girne. No posto de turismo pergunto por autocarros para Nicosia ou por um hostel nas imediações. Começo a sentir-me verdadeiramente cansado e resolvo-me por um banho quente e uma cama, mesmo que ainda sejam 2 da tarde…

Manhã seguinte parto para Nicosia e atravesso a pé para o lado sul.

A divisória entre os dois lados do Chipre é sem duvida a mais estranha fronteira que alguma vez cruzei. Entre os dois lados há uma terra de ninguém, guardada por capacetes azuis e forcas da ONU; uma linha que divide inclusive a própria cidade e que me faz lembrar Berlim nos tempos do muro.

Não sei se é de mim ou mesmo da cidade, mas Nicosia parece-me completamente aborrecida. O estado de espírito também não ajuda; a noite anterior foi turbulenta depois de uma paragem de digestão que me deixou fisicamente enfraquecido.

Resolvo prosseguir para Paphos e no dia seguinte para Limassol. Por fim já não é apenas Nicosia mas sim toda a ilha a parecer-me aborrecida e não fosse Marios – o meu CS em Limassol – a providenciar umas noites de alguma animação, julgo que teria fenecido ao tédio…

Marios é um miúdo de 20 anos a estudar no Chipre e que vive aqui apenas com a irmã. É um Tessalonicense fervoroso e um apaixonado pela música grega.

Na primeira noite, sou convidado para um concerto jazz, e duas noites depois, na companhia de alguns dos seus melhores amigos, para uma noite de musica tradicional grega, onde se atiram cravos aos músicos e onde os meus anfitriões mostram todos os seus dotes de dançarinos…

A minha curta estadia em Israel esgota-se ao fim de 3 dias.

Ofer – que reencontrei em sua casa depois de em Maio o ter recebido na minha – deixa-me na central de autocarros onde seguirei em direcção a norte para cruzar a fronteira do Rio Jordão para o lado da Jordânia.

Compro o visto e dirijo-me ao oficial para que seja carimbado e tenha permissão para entrar no país. O agente alfandegário interroga-me sobre onde vou ficar, o que faço, quantos dias pretendo ficar na Jordânia, mas as minhas respostas parecem estranhar ao meu interlocutor;

- Ainda não tenho onde ficar. Vou procurar. – Digo. O agente parece desconfiado.

- Sou arquitecto.

- O que é isso? – Pergunta-me…

Procuro na mochila o caderno de viagem e mostro alguns rabisco por forma a explicar a minha ocupação e com a ajuda do guia que trago comigo, mostrar-lhe que o meu interesse é visitar umas ruínas nas imediações e seguir para sul.

Por fim, faz-me olhar para um reconhecedor da íris, passando-me o passaporte e anunciando com um sorriso;

- Este é Mateus Brandão, o arquitecto que vem de Portugal…

Quando saio do táxi em Al-Mashari’a e ainda pondo a mochila às costas, alguém se dirige a mim em árabe. Um indivíduo de feições queimadas pelo sol, barba negra e aspecto forte, responde-lhe igualmente em árabe e dirige-se a mim em inglês;

- Parece que estás à procura de qualquer coisa!?.

Não tem um minuto que deixei o táxi! Explico-lhe que tenciono apenas visitar as ruínas e que procuro um ATM para levantar dinheiro. Diz-me que o siga e que não fale com mais ninguém, com uma expressão de quem diz; ‘não são de confiança’…

Apesar de ter sempre um ‘pé atrás’ nestas situações, a tendência para crer nas pessoas é maior do que qualquer receio e deixo-me levar… enquanto aguardo para levantar dinheiro Ali apresenta-se e pergunta-me onde vou ficar esta noite.

- Não sei! Há algum hotel ou pensão por perto? – Pergunto.

- Não! – Responde-me. – Queres ficar em minha casa?

Aceito de imediato! Poder fazer parte do quotidiano de uma família local, nem que por um ou dois dias, é um privilegio a que nenhum viajante se nega, revelando-se esses momentos, os mais marcantes de qualquer viagem.

Ali leva-me para casa dos pais. Uma habitação inacabada – como quase todas na Jordânia – com um portão azul, perro, onde um grupo de crianças parece tão admirada quanto feliz por ver uma cara estranha e poderem dizer algumas palavras em inglês;

- Hi! How are you? What’s your name?

Descalço-me para entrar. Cumprimento um dos irmãos de Ali presentes na sala com o habitual; ‘salaam ’alaykum’ e sou convidado a sentar. As mulheres estão todas na sala adjacente e precinto que haverá chá não tarda nada. Mais irmãos vão entrando e saindo e acabo por lhe perder a conta. O chá é servido e o pai de Ali faz-nos também companhia. É um homem de olhar delicado, barba branca e um caminhar curvado pelo peso da idade. À cabeça usa um tradicional lenço beduíno de cores vermelho e branco.

Fazem-me imensas perguntas, mas antes de me interrogarem sobre a minha tendência religiosa, querem saber se os meus pais ainda são vivos, quantos irmãos tenho, se sou casado ou tenho filhos. Descobrirem que apenas tenho um irmão e que com 29 anos contínuo solteiro, deixa-os completamente pasmados.

Servem-me fruta e desdobram-se na sala para nunca me deixarem sozinho. Estando longe de casa, fazem questão de dizer que enquanto ali estiver serão eles a minha família e que cuidaram de mim como de um filho…

Explico o que me traz a Al-Mashari’a e Ali diz que vai arranjar um condutor para no dia seguinte me levar a ver as ruínas. Aparentemente não há como ir a Umm Qais sem ser de táxi, de maneira que quer encontrar alguém da sua confiança e que não me cobre também mais do que o normal.

Um dos irmãos de Ali está prestes a começar a sua casa. Aqui ninguém sabe o que é um arquitecto mas depois da minha explicação, fazem-me chegar papel e caneta e põem-me de imediato a trabalhar. Pedir a um arquitecto para do nada fazer um esboço, é como aquelas entrevistas de televisão em que pedem a alguém para cantar, ao que o entrevistado cede ainda que contrariado e por apenas alguns segundos.

Os aromas da cozinha invadem a sala. As especiarias anunciam o jantar para breve. Um enorme prato de arroz com um bom naco de frango, salada e bastante pão é servido numa bandeja à minha frente.

Fico por fim sozinho. O único momento em que todos abandonam a sala é precisamente durante as refeições. Durante a noite inclusive, o pai de Ali estende o colchão no centro da sala e dorme a meu lado.

Não chego a conhecer mais nenhum compartimento da casa que não seja a sala – onde a única mobília é um armário para a televisão e diversas almofadas espalhadas em todo o perímetro – e a casa de banho, que na verdade fica fora da habitação, num cubículo improvisado.

Aparentemente a maioria das casas não tem mais de três compartimentos; uma sala, um quarto – onde dormem todos os elementos da família – e uma cozinha. A casa de Ali tem exactamente esta configuração. Sente vergonha pela sua casa, de tal maneira que não ma quer mostrar e só na segunda noite, depois de um dia inteiro juntos e na iminência da minha partida, sente a confiança necessária para o fazer.

Naquela casa, que também não é propriedade sua – é arrendada – a peça mais valiosa deve ser a televisão. Ali tem 3 filhos e outro parece vir a caminho, e todos dormem no mesmo compartimento. A cozinha não terá mais de 4 metros quadrados... depois de muito hesitar e livre de qualquer pejo, insiste para que durma em sua casa nessa noite. Tínhamos combinado voltar a casa do seu pai às 9 da noite e enquanto me encho de pipocas que cozinharam especialmente para mim, Ali recebe vários telefonemas da família na outra casa, insistindo para que eu volte. Ali ausenta-se para resgatar a minha mochila mas quando volta, diz-me que tenho mesmo de regressar porque o resto da família me espera como prometido. Vejo-me no meio duma disputa pela minha presença… por maiores que fossem estas casas, elas transbordariam sempre destes corações abertos a um estranho que sem qualquer intenção ou aviso prévio invadiu as suas moradas…

Regresso a casa da família de Ali e o seu pai repreende-me por não ter regressado como prometido. Desfaço-me em desculpas mais como quem agradece, ficando com a sensação que nunca conseguirei retribuir plenamente a generosidade com que fui recebido.

Na manhã seguinte levanto-me cedo, ainda sem que o sol espreite, para seguir para Amman. Toda a família está a pé para me preparar o pequeno-almoço e se despedir de mim. O pequeno-almoço é uma autêntica refeição, com humus, iogurte, salada de tomate e pepino, falafel e pão. De estômago cheio despeço-me de todos. Ali levantou-se propositadamente para se despedir de mim e me levar até ao autocarro que fica apenas a alguns metros no final da rua. Depois da última foto com os pais de Ali, um abraço paternal e choroso aperta-me o peito. O seu pai chora enquanto diz que terei ali sempre um lugar onde voltar e onde tenho de regressar com a minha família.

De mão no peito – ao costume árabe – repito incessantemente e no mais profundo reconhecimento;

- Shukran! Shukran! Shukran…

Os autocarros na Jordânia só seguem quando cheios e qualquer que seja a viagem, não custa mais de 2 euros.

Em Al-Mashari’a, o motorista dá várias voltas de um lado para o outro da única estrada que atravessa toda a povoação, até encher e podermos avançar. Não consigo deixar de pensar em Ali e na sua família, e na forma calorosa com que me receberam. Antes de partir, Ali voltou a pedir-me que não me esquecesse de si e que quando regressasse a casa lhe enviasse uma carta de forma a tentar ajuda-lo a conseguir o necessário para a obtenção de um visto para poder viajar para a Europa. Disse-me várias vezes que precisava de trabalhar para sustentar a família, não se importando de passar uns anos fora, eventualmente na Bélgica onde tem um amigo jordano também a trabalhar.

O autocarro enche por fim em direcção a Irbid e eu penso em como gostaria de o poder ajudar!..

Rumo a Amman com duas paragens pelo meio; Ajloun – um castelo árabe construído como protecção contra os Cruzados e elo de uma cadeia de fortes que permitia transmitir mensagens entre Damasco e o Cairo num único dia – e Jerash, um conjunto de ruínas romanas.

Em Amman sou recebido por Neil. Quando chego a sua casa pergunta-me de onde sou, o que revela que prestou pouca atenção ao meu perfil ou que recebe tanta gente que lhes perde o rasto. Na verdade Neil não tem grande acesso à Internet, de maneira que quando recebe pedidos de alojamento apenas diz que sim…

- Sou de Portugal. – Digo.

- Portugal?!

A surpresa instala-se porque no quarto adjacente está Ricardo e Laura, um casal português que está em Amman depois de umas semanas a viajar pelo país, com uma pequena incursão pela Síria. Depois de mais de dois meses de viagem são os primeiros portugueses que encontro no caminho e inesperadamente, alojados pelo mesmo CS.

Regressam a Portugal no dia seguinte, mas antes disso e na companhia de Yazed – um amigo de Neil que veio de Petra para estudar com o objectivo de ser guia turístico e que anseia pelo fim dos exames para deixar a cidade onde não se consegue habituar a estar – encontramos um café de ambiente local, onde apenas homens fumam sheesha, jogam gamão ou dominó e vêm futebol da liga espanhola, para um chá e uma troca de impressões sobre as nossas viagens. Ricardo deixa-me ainda com algumas dicas interessantes, como por exemplo, uma forma de entrar na cidadela de Amman sem pagar e sem que isso seja ilegal…

Ricardo e Laura partem com escala em Londres, mas o avião que os leva trás por sua vez, Tim e Veronika, um outro casal que ficará alojado em casa de Neil e que me farão companhia durante alguns uns dias.

Tim é australiano, jornalista e fotógrafo freelancer. Veronika é argentina e professora. Apesar de morarem em Londres e fruto da ocupação de Tim, já viveram no Brasil, no Quénia ou em Itália, e já correram muitos outros países, desde a América Central ao Sudoeste Asiático.

Amman é uma cidade relativamente pequena e tudo o que há para ver vai pouco para além da cidadela e do anfiteatro romano. Do topo da colina onde assenta a cidadela, é possível abarcar quase toda a cidade que se desdobra até ás areias do deserto nas imediações, nas suas cores ocres, monocromáticas e monótonas.

É altura de seguir para sul ao encontro de Petra e dos beduínos que vivem nos seus arrabaldes. Deixo Tim e Veko com a promessa de reencontro na gruta de Khaled e Ghassab – os beduínos CS que nos irão alojar nas próximas noites e que vivem literalmente numa gruta no meio das montanhas de Petra.

O meu contacto CS é beduíno e toda a sua família – como muitas outras em Um Syhoune – foi forçada a abandonar as grutas de Petra aquando da classificação do espaço pela UNESCO. No entanto, alguns beduínos mantêm o seu modo de vida tradicional e encontraram outras grutas ou espaços onde montar as suas tendas, nas redondezas da mais importante atracção turística da Jordânia e onde a maioria deles trabalha vendendo souvenirs ou alugando camelos e burros.

O meu taxista leva-me até à aldeia e faz o favor de perguntar pelo King – aparentemente, o nome pelo qual é conhecido Khaled, o meu anfitrião. No entanto, é Ghassab quem me espera porque King já partiu para a gruta onde, para grande sorte minha, mataram e cozinharam um cordeiro.

Ghassab é o verdadeiro tipo das cavernas (sem qualquer conotação negativa!). Tem a pele ruborescida pelo sol, barba negra e rastas, que a par da roupa remendada, lhe conferem um certo ar hippie. Estudou durante 4 anos em Berlim e regressou para ser guia turístico mas a ocupação não o preenchia. Tendo vivido toda a vida em grutas, não concebe viver noutro lado senão nas montanhas e para isso resolveu procurar a sua própria gruta e criar uma espécie de eco-lounge onde o seu modo de vida pudesse fazer sentido.

Quando chegamos, depois de uma pequena viagem que só é possível fazer num 4x4, há um grupo em volta da fogueira bebendo chá e conversando enquanto outros se encontram a jantar no interior da gruta. Uma enorme travessa de arroz com grão-de-bico e cordeiro assado é rodeada por comensais entre eles Tim e Veko. Todos jantam da travessa e fazem-no com as mãos, e eu junto-me ao repasto. A carne é deliciosa e extremamente tenra. Numa comunidade tão pobre a carne é um luxo e reservada quase exclusivamente para os dias de festa e eu sinto-me honrado por este privilégio.

Não há noite como a do deserto! Um céu que mais parece uma cúpula pintalgada de estrelas, tão baixo que parece ser possível tocar. Os amigos regressam à civilização e é hora de sono nas montanhas de Petra. Para além da gruta, há uma tenda no exterior e estando a gruta já composta de dorminhocos, fico-me pela tenda. Quando amanhece, volto a ter aquilo a que chamo; ‘um quarto com vistas’. Um sol tímido espreita lentamente por detrás dos rochedos mais altos, deixando escapar raios de luz que dançam pelas montanhas abaixo. O frio da noite vai sendo substituído pelo aconchego do sol e todos se vão lentamente levantando…

15 Dezembro, 2011

Novos Amigos em Istambul...

Depois de 2 meses, já sinto saudades de uma boleia!

Para fazer os 40Km que separam Simitli de Bansko – na Bulgária – resolvo voltar a esticar o polegar. Na verdade, creio que o espírito da viagem está precisamente nesses pequenos momentos de conversa que troco com quem me ‘apanha’ no caminho.

Desta vez é Iuri e Yugoslav, dois recém empresários que se deslocam a Bansko em prospecção de mercado. Depois de anos a trabalhar para uma empresa de instalação de saunas e sistemas de hidromassagem, Yugoslav aposta agora no seu próprio negocio. É engenheiro e com a companhia de Iuri nas vendas, espera conseguir ter o sucesso necessário para manter o negócio de pé.

Quando param o carro em frente a edifícios em construção e revelo a minha ocupação, tenho por momentos a sensação de voltar às ‘visitas à obra’ – algo que fazia com grande prazer antes de partir e do qual tenho confessas saudades.

Nesta estância de Inverno que recebe habitualmente turistas russos, ingleses e alemães, a originalidade dos edifícios é pouca e não fosse ter a certeza de onde estou, apostaria que me encontrava algures na Suiça…

Pelo caminho, a típica paisagem de montanha com rebanhos de ovelhas que pastam sob o olhar atento do pastor e do seu cão, insiste em fazer-nos companhia. É interessante constatar como este quadro parece acompanhar-me. Desde a Noruega que as cores são as mesmas, como se o Outono viajasse para sul à mesma velocidade que eu.


Chego finalmente a Plovdiv. O taxista de serviço parece conhecer isto tão bem quanto eu pelo que andamos um bom bocado à procura do hostel… uma vez mais – fruto da época baixa – tenho o hostel completamente só para mim.

Mas vou ficar umas três noites, e na manhã seguinte chega Thomas, um belga de 20 anos a estudar em Istambul que aproveitou o feriado do Kurban Bayrami na Turquia – a celebração que marca a altura da peregrinação dos muçulmanos a Meca e que é assinalada com o sacrifício de um cordeiro – para uma pequena visita à Bulgária.

Ficamos um pouco à conversa e conto-lhe que tenciono ir para Istambul nos próximos dias. Thomas oferece-se de imediato para me alojar no apartamento que divide com mais 3 amigos e para onde regressa exactamente no dia em que conto chegar, utilizando para isso igualmente o mesmo comboio.

Thomas dirige-se para os mosteiros a sul de Plovdiv enquanto eu me faço ao caminho para a Turquia. Antes de Istambul tenciono parar em Edirne, uma pequena cidade na confluência das fronteiras búlgara e grega e que por isso mesmo respira uma áurea completamente ocidental e descontraída.

Ao entardecer, sento-me no muro em frente à mesquita para um desenho rápido. Dois miúdos sentam-se ao meu lado e não tardam a procurar algo para me oferecer; bolachas e pastilha elástica e não há como recusar… A noite vai caindo rapidamente. As luzes da mesquita iluminam os minaretes altos e as cúpulas e semi-cúpulas desta enorme construção. Para completar o cenário, a chamada para a oração ecoa por toda a cidade…


Ao chegar a Istambul e ainda na plataforma de embarque, encontro Thomas e juntos dirigimo-nos para sua casa. O eléctrico percorre toda a zona turística de Istambul, cruzando a ponte Galata em direcção ao Golden Horn e os primeiros vislumbres desta cidade cosmopolita e vibrante inundam-me o espírito.

Ainda é manhã, e o pequeno-almoço aqui é um prato de sopa de lentilhas regado com umas gotas de limão e acompanhado por Ayran, aparentemente a bebida de eleição dos turcos e que não é mais do que iogurte misturado com água e um pouco de sal.

Antes de chegarmos a casa, Thomas quer mostrar-me o bairro curdo e cigano, braço dado com o edifício onde mora.

O contraste não poderia ser maior! Há uma avenida que desce desde a Taksim - uma das mais emblemáticas praças de Istambul - até à ponte Galata; de um lado uma cidade de lojas, embaixadas e edifícios de aspecto consistente e do outro, um bairro decadente, com prédios incendiados, onde um canhão de água da polícia está constantemente estacionado e onde as pessoas parecem viver em profunda miséria

Thomas vive com mais três amigos, todos de procedências distintas; Mathias veio de França e ao que parece tem a fama de ser um bon vivant… seja como for só o conhecerei no ultimo dia uma vez que se encontra em viagem.

Irene é italiana. Está em Istambul ao abrigo do programa Erasmus depois de ter feito o mesmo em Londres. Estuda Relações Internacionais mas não tem ambições diplomáticas. Por outro lado é uma apaixonada por arte e línguas; por todo o apartamento, tem espalhado traduções do inglês para árabe e turco, duas línguas que se encontra actualmente a estudar.

Xay, por seu lado, veio do sul do Paquistão para completar uma pós-graduação. É professora e a mais velha dos residentes no prédio, deixando-a com um sentimento de deslocada apesar de todo o seu sentido de humor e sarcasmo que nos faz rir durante horas. Xay, como todo o paquistanês, fala Urdu mas o inglês é quase a sua língua materna. Pertence à casta Mogol, a mesma do imperador que mandou erigir o Taj Mahal

Pouco após a nossa chegada, Thomas apressa-se a fazer chá. Irene revela-me que ele é um consumidor compulsivo e durante os dias que passo em sua casa, chá é uma constante a todo o momento. Para completar, Thomas mostra-se um fantástico anfitrião, procurando sempre dar-me a conhecer os diversos paladares da cozinha turca, especialmente os da sobremesa.

Não houve noite que não terminasse com o sabor de uma Baklava e de um copo de chá. Uma espécie de culto que passava por comprar a deliciosa sobremesa no pasteleiro mesmo à porta de casa, e que mantinha a sua loja aberta até altas horas da noite…

Aos poucos vou conhecendo melhor Thomas. Todos os dias de manhã sai para correr de forma a preparar a próxima competição. Por mais de uma vez foi campeão belga de corta-mato na sua categoria e foi precisamente aquando da participação no campeonato europeu realizado em Istambul, que se apaixonou pela cidade e a resolveu trocar por Gant.

Thomas estuda história. Por duas vezes que tento visitar Haia Sofia mas sem sucesso e para remediar, Thomas faz-me uma ‘visita virtual’ ao interior do mais icónico dos edifícios de Istambul, revelando um conhecimento profundo da sua história, significado e representação.


Durante 6 dias deambulo pela cidade deixando-me impressionar pela sua atmosfera; pelos pescadores que enchem por completo a ponte Galata durante todas as horas do dia e que retiram das suas linhas, 3 ou 4 minúsculos peixes de uma só vez… pelos barcos que cruzam o Bósforo a toda a hora e pelo por do sol do alto do terraço do hotel junto à torre Galata. Pela azafama dos bazares e pelos inúmeros minaretes apontados ao céu e que sacodem pombos de cada vez que o muezzin chama para a oração.

09 Dezembro, 2011

O Mateus já está em viagem há 101 Dias! :)
Como devem imaginar há muitas estórias para contar mas podemos também ficar a saber de outras contas: OS NÚMEROS que o Mateus já fez até ao momento na viagem de 25 000 kms rumo ao Cabo Agulhas!

05 Dezembro, 2011

A Outra Face da Ucrânia...

Os dias na Ucrânia prosseguem em direcção a Oeste.

O país encontra-se subjectivamente dividido entre o lado Este, mais saudosista da era soviética, mais adepto dos ‘amigos’ russos e até mesmo, mais condescendente com o sistema de oligarquia em que o país parece mergulhado, com sucessivos escândalos políticos que parecem não resultar em qualquer penalização – quer publica, quer criminal – para com os envolvidos. Até mesmo a comunicação social se encontra na mão destes ‘todos poderosos’ que parecem controlar o país.

Na zona Oeste, por seu lado – em tempos, parcialmente pertença da Polónia – respira-se um sentimento europeísta e mais ocidental, fruto dessas relações de proximidade, e até mesmo um maior sentimento de unidade nacional.

Depois de Odessa dirijo-me agora para Kamianets Podilky e Khotyn. O comboio entra na estação manhã cedo, sem que os primeiros sinais de luz do dia tenham surgido no horizonte. Tenho um hostel reservado mas rapidamente descubro que se encontra encerrado nesta altura do ano... vou deambulando até ao centro da cidade na esperança que as horas passem e que possa encontrar um posto de informação turística que me ajude com a dormida para esta noite. Quando finalmente abre, o funcionário encarrega-se de me conseguir um quarto pelo mesmo preço que me tinha disposto pagar no hostel e chama um táxi para me levar até lá.

Indica a direcção ao taxista e seguimos. O táxi pára em frente a um dos típicos edifícios de estilo soviético sem que haja qualquer evidência de ser ali o local pretendido.

E de facto não é!

Subo uma série de andares e não encontro nenhuma indicação e resolvo tocar à campainha na expectativa que alguém me saiba indicar o local exacto. – O taxista, mesmo que se tenha enganado, não pode ter sido por muito! – Penso.

Abre-me a porta uma senhora de idade. Não fala nada de inglês e tento explicar por gestos o que procuro. Junto as palmas da mão e encosto-as à cara em sinal de quem procura um sítio para dormir. Apesar de não saber o que procuro, oferece a sua casa para que eu descanse, se for esse o caso…

Vou a um cyber-café na procura da morada exacta e pergunto a um dos miúdos presentes se conhece aquele local. Dizem-me que sim e um deles oferece-se para me ir lá levar. Quando estamos perto, ouço chamarem o meu nome. O proprietário da pensão anda à minha procura de telemóvel na mão, seguramente ligando para o funcionário do posto de turismo, tentando saber o que se passa.

O proprietário é extremamente atencioso e prestativo. Para que nada fique mal entendido – já bastou o hostel que era suposto estar aberto e estava fechado e o taxista que me deixou no lugar errado – liga ao filho para que este fale directamente comigo e me explique tudo o que necessito saber.

Ao final do dia vem ver se está tudo bem comigo e leva-me a um restaurante onde possa jantar. É professor universitário e ajuda o pai a gerir o negócio do hotel e do café que têm no R/c. Depois do jantar ficamos à conversa e conta-me o difícil que é viver neste país, com ordenados miseráveis – como é o seu caso (não chega a 100€ por mês)! – e falta de oportunidades. Partilhamos um café mas quando lhe ofereço um licor que trouxe da Finlândia, recusa imediatamente por ter ainda de conduzir e a taxa de alcoolémia permitida ser 0…

Deixo Kamianets-Podilsky em direcção a Uzhgorod. Sou o único no hostel no primeiro dia, mas por volta das 3 da manhã chega companhia vinda dos Estados Unidos. Jim anda um pouco baralhado com horários de comboios e autocarros e dinheiro que quer trocar num banco a um domingo… é o seu último dia na Ucrânia e não quer ficar com mais dinheiro do que precisa. Está a caminho de Budapeste depois de 3 meses de Europa. À noite, temos uma animada conversa sobre o estado do mundo e Jim confessa ser um crítico fervoroso da política americana. Debatemos guerras, geopolítica, os verdadeiros fundamentos da União Europeia – que parecem estar a desaparecer – o papel dos Estados Unidos e da China no futuro próximo e todas as consequências que poderão advir da crise económica que o mundo atravessa. Acha que a União Europeia e mesmo os Estados Unidos não conseguirão manter-se unidos, porque simplesmente não foram pensados para ser tão grandes;

- Se a Checoslováquia se desmembrou porque checos e eslovacos não se entendiam, como querem agora que trabalhem juntos?!.

Depois de Uzhgorod é altura de voltar atrás e conhecer a versão ucraniana da ‘cidade dos leões’; Lviv.

À chegada tenho Andriy à minha espera. Andriy é um daqueles ucranianos que acha que mesmo com todas as dificuldades que país apresenta é possível, com um pouco de esforço e determinação, viver aqui e fazer uma vida normal e ao estilo ocidental. Conta-me que a sua namorada estuda na Alemanha e que é usual ir visitá-la assim como vai com alguma frequência assistir a espectáculos de música no centro da Europa, queixando-se apenas das burocracias associadas às fronteiras. Para um cidadão da U.E., visitar a Ucrânia apenas implica a apresentação do passaporte, ao passo que ao contrário – e o mesmo acontece com os turcos – é exigido visto de entrada.

Encontramo-nos na praça da ópera e seguimos para sua casa. É a primeira vez que ando de Marchutka – os mini autocarros citadinos – e fico espantado com o ritual de pagamento. As pessoas entram por ambas as portas do autocarro e acomodam-se da maneira possível, fazendo passar entre mãos, até chegar ao condutor, o dinheiro para pagamento da viagem, sem que haja qualquer mal-entendido ou quem tente não pagar. Perante tal honestidade, pergunto-me se tal seria possível em Portugal…

Andriy é também um amante do futebol e um apoiante do Karpaty Lviv, equipa que atingiu o auge no ano transacto com a presença na taça UEFA, batendo-se de pé para pé com equipas como o Borussia de Dortmund ou Paris Saint German, mas que esta época anda pelos últimos lugares da tabela, para grande desgosto de Andriy. Seja como for, e com a liga dos campeões nesta semana, combinamos assistir a um dos jogos em sua casa, algo que fizemos na companhia de um licor local e de muita conversa em torno de projectos de viagem, deixando o jogo claramente para ultimo plano…

Antes de partir conheço alguns dos seus amigos. Um deles é mais uma daquelas pessoas que me vão inspirando ao longo do caminho. Alguém que se aventurou a fazer das viagens o seu modo de vida, sendo guia de montanha por conta própria em varias partes do mundo, com especial incidência na zona dos Himalaias.

Andriy ajudou-me a encontrar um comboio que me leve através das montanhas até à fronteira com a Roménia. Um comboio local, com assentos em madeira, que costuma utilizar com regularidade para as suas actividades de montanha.

Preciso sair esta noite para conseguir ligação a esse comboio e assim sendo, parto uma noite mais cedo com um encontro pré jantar com os seus amigos, partilhando um copo de vinho da região e muitos votos de felicidade para todas as viagens que o futuro nos reserva…

21 Novembro, 2011

No Reino dos Oligarcas...

Alguns comboios têm o condão de agitar o meu estado de espírito.

Quando entro na carruagem ucraniana na estação de Varsóvia com destino a Kiev, a moral volta novamente em alta… fazem-me companhia, três ucranianos de gerações distintas e que por isso mesmo, espelham realidades diversas sobre o seu próprio país, o seu passado e a sua relação com a Rússia. Depois de conhecer Hennadiy – presidente da fundação para os estudos regionais e internacionais de Polissa – e de lhe falar da minha paixão por comboios e de como sempre sonhara viajar nos comboios da antiga União Soviética, o companheiro de maior idade, que ostenta uma estranha tatuagem no pulso, reage entusiasticamente. Hennadiy diz-me que ele sente nostalgia por esse tempo e que isso é comum à maioria das pessoas da sua idade. Hennady mostra-se completamente em desacordo, justificando-se com o desenvolvimento económico do país nos últimos 10 anos, algo que não seria possível numa Ucrânia da CCCP.

Hennady regressa de um qualquer congresso em Varsóvia. Fala um inglês fluido e conversamos um bom bocado. Fica surpreso quando lhe falo dos meus planos de viagem e de todos os sítios que tenciono visitar na Ucrânia;

- Schors?!? – Pergunta-me surpreendido. – Que há lá que queiras ver?

- Velhas locomotivas. – Respondo…

A viagem prossegue e o comboio chega finalmente à fronteira.

À entrada todos se sentam nos respectivos compartimentos e há uma certa tensão no ar.

Um batalhão de mulheres policia irrompe pelo comboio.

Ao mostrar o passaporte, a agente de uniforme verde e salto alto parece desconfiada; – olha-me insistentemente e pede que ponha o cabelo atrás das orelhas e não sorria…

Cede por fim levando o passaporte consigo para carimbar, não mo devolvendo sem uma nova análise comparativa;

- Definitivamente ela gosta de ti! – Diz-me Hennady com graça.

O dia amanhece e da janela do comboio vejo os primeiros sinais de chuva. Em Kiev, volto a não ter ‘sofá’ onde ficar e o recurso a um hostel é inevitável. Reservo 4 noites no Dream Hostel, mesmo junto ao estádio que vai receber a final do campeonato da Europa de futebol no próximo ano. Está ainda em obras – como quase todo a cidade – mas será inaugurado no sábado com a actuação da Shakira...

O staff do hostel é extremamente prestativo e simpático, o ambiente é fantástico e encontro viajantes de todos os cantos do mundo; do Japão ao Chile, do Canadá à Austrália…

Alfredo é um jovem dentista de 25 anos que veio do Chile para percorrer toda a Europa e a facilidade de comunicação oferecida pelo espanhol, torna-nos companheiros de deambulação durante alguns dias.

Conheço também Uğur (lê-se simplesmente; ‘Ur’ – o ‘ğ’ é mudo). Vive numa pequena cidade no interior da Turquia e é linguista e vendedor de especiarias em grosso. Encontra-se em viagem à procura de novo poiso porque se sente decepcionado com o rumo do país e com as pessoas que nele vivem. Chega a dizer-me, para meu desgosto;

- Não confies nos turcos!

Não percebo exactamente qual a religião que professa, mas o interessante é que aparentemente, os seus princípios alicerçam na partilha. Nos poucos dias que passamos juntos em Kiev, não houve nada que não tenha disponibilizado a todos com quem se cruzava; comida, roupa ou até mesmo dinheiro…

Num desses dias fez-nos companhia um judeu rabino. Só comia kosher e vi-o várias vezes rezar no dormitório. Apesar da desconfiança inicial para com Uğur, rapidamente ultrapassam qualquer animosidade e foi extraordinário vê-los conversar e como Uğur se mostrou imediatamente disponível para conseguir o que fosse necessário para que ambos pudessem partilhar uma refeição sem que isso interferisse com os preceitos kosher.

Há de facto uma ‘possibilidade’ para este mundo caótico!..

Após 5 dias em Kiev estou de volta à estrada. Depois de Kharkiv – a antiga capital do país – dirijo-me para Donetsk, onde supostamente existe um museu ferroviário e onde Dima me espera em sua casa.

No comboio conheço Alexander, um jovem estudante de engenharia. Não fala quase nada em inglês e por isso mesmo decide ligar a uma amiga para fazer a tradução e servir de ponte entre nós. Oferece-me chá e presta-se a ajudar-me com todos os procedimentos a bordo…

Nada poderia dar mais sentido a esta viagem do que estas pequenas coisas… e elas acontecem tantas vezes!..

Na verdade não houve viagem de comboio em que não me tenham oferecido ou chá ou cerveja. Numa dessas vezes, um companheiro de viagem que se esforçava animadamente para falar inglês comigo, ofereceu-me uma cerveja e quando mais tarde retribuí com outra, mostrou-se confuso…

Dima vai buscar-me à estação às 6 e meia da manha. Quando lhe liguei no dia anterior comunicando a hora de chegada do comboio e perguntando pela melhor hora para nos encontrar-mos, não mostrou qualquer problema em ir buscar-me tão cedo. Dirigimo-nos para sua casa e rapidamente fico a saber que não há qualquer museu ferroviário e que também não haverá jogo do Shaktar este fim-de-semana. Basicamente, tudo o que tinha programado para estes dias…

Dima é urologista. Vive num antigo edifício da era soviética num bairro dos arredores de Donetsk. Mesmo sendo médico, aufere um ordenado irrisório e talvez por isso tenhamos passado tanto tempo conversando sobre as semelhanças e problemas socio-económicos dos nossos países. Para ‘afogar’ as nossas lamúrias, introduz-me numa noite de vodka – que os ucranianos bebem desmesuradamente – acompanhada de sumo de laranja e pão torrado com manteiga de alho, até altas horas da noite…

06 Novembro, 2011

De Tallinn a Gdansk em 15 dias...

Desembarco em Tallinn ao início da tarde. Foram duas hora e meia duma viagem que repito pela segunda vez. Hoje espero a visita de um amigo de infância que aproveitou as suas férias para me fazer companhia ao longo de duas semanas pelos países do Báltico, terminando em Gdansk, a cidade que por pouco nos escapou – 4 minutos! – quando visitamos a Polónia em 2005.

Não tendo conseguido qualquer ‘sofá’, fico pela primeira vez num hostel. Aos poucos vou percebendo que é mais fácil ser recebido por algum ‘CS’ em locais mais pequenos do que nas grandes cidades. Certamente porque aí as pessoas não estão constantemente a receber pedidos e se mostrem mais receptivas a novos hospedes.

Os hostels são no entanto locais interessantes para conhecer outros viajantes, muitos deles também em viagens de longa duração. Aqui no Dancing Eesti há quem vá fazer o transiberiano até Pequim e outros que já percorreram toda a Ásia. Seja como for a época alta já vai longe e poucos são os hóspedes com quem conversar.

Só há uma linha capaz de ligar por via ferroviária Tallin a Riga e mesmo assim é preciso trocar de comboio na fronteira. É precisamente isso que nos propomos fazer, mas antes disso combinamos uma paragem em Tartu para visitar a segunda maior cidade da Estónia e o mais importante pólo universitário do país.

Tom, o nosso anfitrião ‘CS’, veio da Letónia para estudar antropologia e mitologia. Diz que preferiu estudar cá por a universidade ser bem conceituada e melhor que qualquer outra no seu próprio país. Vive junto à universidade numa casa algo degradada que alugou por um preço igual ao que pagaria por um apartamento fora do centro. Prefere assim, diz-nos. Além disso foi fazendo obras na casa, com o senhorio a suportar o custo dos materiais. Sente-a um pouco como sendo sua e agora que está a duas semanas de terminar a sua estadia por aqui, conta-nos que é com alguma magoa que deixará a casa.

Tom faz um pouco de tudo. Além de investigação cientifica para a sua tese final – da qual já publicou partes em jornais e revistas da especialidade – faz critica de cinema para uma revista nacional, entre outros trabalhos relacionados com os seus interesses e gostos pessoais. E para comprovar os atributos que lhe são reconhecidos no seu perfil de ‘CS’, faz questão de nos mostrar e dar a provar os seus talentos culinários numa sopa de legumes absolutamente deliciosa!..

No último comboio antes da fronteira contamos o dinheiro. Não queremos que falte mas também não interessa sobrar. No dia anterior havia trocado algun Lats com o Tom para poder comprar os bilhetes no lado de lá da fronteira. Fiz mal as contas! E quando vemos o preço do bilhete até á fronteira, reparamos que nos falta 1 euro… não é muito mas não temos mesmo e agora só dinheiro letão. Explico à revisora que não tenho mais euros, mostro-lhe todas as moedas que tenho... Pisca-me o olho e dá-me um bilhete para duas paragens antes da fronteira e ainda recebo troco…

Chegados a Cesis somos recebidos por Bruno, um alemão que trabalha na instalação de câmaras fotográficas em aviões para fotos de reconhecimento aéreo. Quando se mudou para cá não conhecia ninguém e o rigor do Inverno fê-lo crer que não ficaria por mais um ano. Mas com a chegada do verão, conta-nos que os habitantes saem de suas casas dando nova vida a toda a cidade. Foi então que conheceu a sua namorada – de quem não foi capaz de se despedir – e assim aqui permanece.

Apesar de já ter viajado por uma série de países ao abrigo das suas competências profissionais, Bruno planeia embarcar também numa longa viagem. Na parede da sala tem afixado uma data: 01/11/14, que é quando espera ter terminado de pagar a casa e ter algum dinheiro de sobra para partir.

Bruno vive literalmente no meio da floresta. À entrada da sua pequena aldeia há um lago que mesmo com este tempo cinzento, convida a um mergulho. No entanto, Bruno diz-nos que o proprietário do terreno resolveu vedar a área e tornar aquele espaço apenas seu;

- Depois da saída dos Russos, toda a gente faz o que quer aqui na aldeia – diz-nos com alguma revolta!...

Apesar disso, conta-nos ser o tipo de aldeia onde toda a comunidade se inter ajuda e protege, e como pudemos comprovar, não é sequer necessário trancar a porta de casa ou do carro.

Depois de Riga, seguiu-se Nida (Lituânia), Malbork – já na Polónia – e por fim Gdansk, onde fomos recebidos por Inga e Marek, um casal de vegans que nos espera na estação e nos encaminha por fim para sua casa.

Inga e Marek não jantam habitualmente às quartas-feiras. É dia de ‘limpeza corporal’… no entanto, perante a nossa visita, Marek prepara pasta com tofu e cogumelos para o nosso jantar. Os cogumelos são enormes! Marek ‘amanha-os’ cuidadosamente removendo a parte fibrosa com uma pequena faca. Fico admirado só de o ver…

À mesa a conversa é sobre viagens; são ambos viajantes experientes tendo já percorrido toda a Europa e grande parte da Ásia. Habitualmente fazem duas viagens por ano, uma no Verão – geralmente à boleia – e outra no Inverno. Este ano percorreram os países da antiga União Soviética entre a China e o Mar Cáspio. Trouxeram frutos secos do Turquemenistão e brandy do Tajiquistão que somos convidados a provar. São bastante conhecedores da nossa geografia e viajaram por Portugal alguns anos atrás também à boleia. Para o próximo Inverno, planeiam ir ao Sudão, o que se revela um excelente tema de conversa ou não fosse esse um dos países por onde vou passar.

Acho sempre extraordinária a confiança que a maioria dos ‘CS’ deposita nos outros. Um dos primeiros procedimentos é geralmente a entrega da chave da casa, por forma a deixar os hospedes completamente á vontade para se movimentarem conforme quiserem. Com a Inga e o Marek a situação é idêntica; é-nos logo confiada a chave e toda a casa é-nos posta à disposição. Além disso mostram-se completamente disponíveis não só para nos sugerir o que visitar, como para nos ajudar com o regresso do Hugo ao aeroporto.

Um dos lemas do ‘CS’ é precisamente; ‘faz parte da criação de um mundo melhor’, e eu não encontro superior contributo, do que toda a generosidade daqueles que despretensiosamente recebem de braços abertos outros ‘CS’ em suas casas, para esse mundo melhor…