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23 dezembro, 2013
19 dezembro, 2013
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12 dezembro, 2013
10 dezembro, 2013
05 dezembro, 2013
11 junho, 2012
O Último Abraço
Jose, de feições latinas, vestia uma t-shirt azul grená. Carregava uma enorme
mochila e foi sentar-se duas filas atrás de mim. Quando finalmente em
Livingstone descemos do autocarro e estabelecemos o primeiro contacto verbal,
confirmei a sua origem espanhola, mais precisamente de Barcelona.
Havíamo-nos alojado no mesmo hostel. Jose encontrava-se em viagem sensivelmente ao mesmo tempo
que eu, perdendo-se no entanto apenas por estes países do sul de África e
durante aqueles dias, debatia-se sobre que caminho deveria seguir depois de
chegar à Cidade do Cabo. O seu desejo era rumar a casa subindo a costa
atlântica de África, mas as dificuldades do caminho faziam-no questionar se não
seria mais sensato seguir antes para o sudoeste asiático, onde de resto se
encontra de momento.
Passamos uma semana inteira por Livingstone. Luís, um
instrutor português de mergulho, também se junta a nós. Cozinhamos todos os
dias;
- Em seis meses, esta é a semana em que comi melhor! –
Dizia Jose enquanto o perfume dos nossos tachos invadiam a cozinha e
despertavam a curiosidade dos outros hóspedes.
Jose é uma pessoa divertida e bem-humorada, e a
empatia gerou-se com grande facilidade. Quando o deixei por terras da Zâmbia,
prometemos que nos havíamos de reencontrar no Cabo para a minha despedida,
depois das três semanas que iria passar com a irmã e dois amigos – um deles
feito no caminho – na Namíbia.
Os 230Km que faltam para o Cabo Agulhas vão ficar por
fazer por conta de burocracias no rent-a-car.
No entanto, a noite da despedida faz esquecer qualquer réstia de frustração e
transforma-se na metáfora perfeita daquilo que foi a viagem.
A Jose – acabado de chegar na companhia de Ari (uma
das amigas) – junta-se Daniel – num intervalo das suas aulas de voo – e que
traz também consigo mais amigos, sendo que um deles é uma arquitecta portuguesa
a trabalhar no Cabo para um projecto de um estádio na Mauritânia. Também Imraan
– que havia conhecido no Cairo meses antes no final da sua viagem de bicicleta
desde o Cabo, precisamente – se junta a nós com mais dois amigos. Todos juntos
à mesa de jantar, vendo o jogo do Benfica frente ao Chelsea e envergando a
camisola encarnada oferecido pelos amigos antes do inicio da viagem, julgo ter
reunido em volta daquele tacho de massa que confeccionei para todos, toda uma
família; a dos afectos… a dos que estão longe e a dos que fiz pelo caminho.
A manhã acordou igual a tantas outras. O vazio que
sinto é simplesmente o de não saber o que sentir e o de sentir tudo ao mesmo
tempo.
Imraan aguarda-me do outro lado da porta para me levar
até ao aeroporto e troco o ultimo abraço com Jose com a promessa renovada de
nos voltarmos a encontrar.
O peito estreita-se. Não reconheço nada do que sinto.
É como se não partisse. Como se nem sequer tivesse chegado…
À porta das partidas, o ultimo abraço a Imraan e um
até breve, que o mundo é pequeno para quem dele nada conhece a não ser os
afectos de quem nele habita, por mais desconhecido que seja o caminho…
Não raras foram as vezes em que dei comigo –
especialmente à noite, no final de um dia de viagem – a sorrir sozinho da
felicidade que era estar ali…
Numa dessas noites, mesmo depois de intermináveis
horas de espera por um barco que nem sequer sabia se poderia partir, endireitava-me
dentro do saco-cama numa fila de cadeiras do ferry para Girne e sorria…
Todos os contratempos até ali tinham sido compensados
pela companhia de Tom e Matt, os dois sul-africanos a caminho de casa em
bicicleta, e por Andrés, o austríaco de 40 anos em busca de sol para as suas
férias de verão, mesmo que estivéssemos em Novembro…
A felicidade é de facto um sentimento estranho!
Invade-me vezes sem conta, apanhando-me sempre de surpresa, tal e qual como
quem se deixa enganar sempre pela mesma ‘partida'...
E eu sorrio… de cada vez que ‘tenho o sol na minha face’... e o vento e a chuva, e o calor e o
frio… e a compensação de estar em movimento… de ser o espectador de um mundo de
afectos e abraços, e de despedidas que se dão com encostos de testa (como
aconteceu na Turquia)…
E de cada vez que sorria, mais compensado me sentia por
estar ali…
Na verdade, ‘nada
faz mais sentido do que fazer aquilo que nos faz felizes’…
O mundo é feito de abraços, de sorrisos
e de lágrimas, e esta viagem não foram fronteiras. Foram encontros!
29 maio, 2012
Sentimentos Ambivalentes
Johan é um ‘abridor de poços de minas’ –
se é que se pode dizer assim – e todos os meses, por duas vezes, faz a viagem
entre Svakopmund, onde agora reside – Johan é sul africano – e a mina onde a
sua empresa está a operar, nos arredores de Joanesburgo. São cerca de 2000
quilómetros que faz de uma assentada, sem qualquer paragem pelo meio. Quando me
encontra à saída de Keetmanshoop de polegar em riste, já está na estrada à mais
de seis horas e pelo menos mais 12 serão necessárias até chegar a Welkom, onde
o seu filho Pieter reside e onde também passarei a noite a convite de Johan,
assegurando-me que na manhã seguinte, depois da reunião madrugadora que tem na
mina, me deixará entregue à minha família em Joanesburgo.
Quando parou, não tive imediata
consciência para onde se dirigia, percebendo no entanto que me poderia deixar
em Karasburg ou com um pouco de sorte em Upington, já no outro lado da
fronteira, mas uma olhada pelo mapa fez-me perceber que se dirigia quase na
integra até Joanesburgo e que a pouca sorte que eu procurava, era afinal a
sorte toda reunida. Depois de horas de frustração sem conseguir qualquer
boleia, acabava de conseguir uma de mais de 1000 quilómetros que me levaria
directamente a Joanesburgo.
Johan pára para abastecer a carrinha
junto a um cruzamento e os nossos viandantes alemães deixam a caixa traseira
para prosseguir caminho até ao Fish River
Canyon, debaixo de um calor infernal. Os ares quentes do Deserto do Kalahari que se estende desde o Botswana
até ao encontro das fronteiras entre os três países são abrasadores. Um manto
de areias flamejantes sopradas por ventos que viajam desde o Canal de
Moçambique, arrastadas por quilómetros como línguas de fogo até à África do
Sul.
Johan é um excelente conversador e nem
por um momento durante aquelas horas intermináveis de viagem, se interrompeu o
diálogo. Johan ia-me explicando cada detalhe de uma paisagem que conhece pela
palma da mão, onde ele e a família já tiveram propriedades e onde algumas são
de tal maneira grandes que são necessários vários dias para as percorrer na
totalidade.
No entusiasmo da conversa, o acelerador
do carro parece levar pouca margem entre o pedal e o fundo, e não tarda muito a
que um radar de velocidade nos faça parar, inviabilizando qualquer tentativa de
persuasão sobre os escrupulosos policias… Johan é genuinamente boa pessoa, mas
igualmente herdeiro de um passado obscuro de uma mentalidade aviltada onde o ‘branco’
é um ser superior, e não deixa escapar o seu desprezo por estes policias que
pior do que o multarem, são negros…
Prosseguimos viagem.
Johan oferece-me o lanche que a sua
esposa preparou para ele enquanto me conta da cheias que ocasionalmente ocorrem
nesta zona, com a água a atingir alturas tal, que chega a cobrir na totalidade
as vedações das propriedades, deixando um rasto visível de destruição, como
aconteceu recentemente, com parte da linha férrea que segue a par da estrada a
ficar completamente arruinada.
Apesar de toda a rigidez do clima, este
parece ser o lugar ideal para um tipo específico de ovelhas de cabeça preta,
que Johan me explica ser uma defesa contra o sol impiedoso. Também tecelões
‘escultores’ parecem gostar deste clima, e os seus ninhos que crescem de cima
para baixo em forma de cogumelo e onde habitam centenas de indivíduos, pontuam
os postes de comunicação ao longo de toda a estrada.
Entre estas fronteiras tiradas a régua e
esquadro, há uma interminável terra de ninguém. Nestes quase 20 quilómetros sou
invadido por uma sensação estranha, um sorriso incontido, um pronuncio evidente
de um fim cada vez mais eminente. Os últimos seis meses desfilam-se-me em
retrospectiva. A última fronteira chega por fim. O último carimbo. Cheguei.
Consegui…
Sentimentos ambivalentes consomem-me o
espírito; o fim, o regresso, numa mistura de alegria e pena…
Mas a viagem prossegue.
Nas margens do rio Orange, fileiras infindáveis de videiras riscam as encostas ao
largo de Upington, que Johan se desvia para me mostrar, neste que é um dos
maiores e mais importantes rios da África do Sul e que pouco depois daqui, faz
fronteira natural com a Namíbia.
Alguns quilómetros depois alguém tenta trocar
um pneu na berma da estrada. Johan passa mas volta atrás assim que percebe que
o homem que sentado na estrada o tenta fazer, não tem uma perna.
Rapidamente trocamos o pneu e seguimos
viagem. Um céu que se carrega de púrpura mancha o azul pálido da tarde que se
esfuma ao ritmo do relato de mortes de amigos de Johan na estrada. O céu
fecha-se sobre relâmpagos silenciosos que reclamam tempestades distantes e a
noite toma o seu lugar.
Às portas de Welkom, a estrada é um
desfiladeiro entre paredes de milho. Plantações infindáveis estendem-se por
quilómetros como um celeiro por desfolhar que alimenta todo o país. Apesar da
escuridão, Johan vai parando aqui e ali para me mostrar estas marcas da
paisagem, como faz ao passarmos por uma das maiores barragens do país, que a
noite não deixa ver.
O dia desperta ainda noite e
dirigimo-nos para a mina onde Johan tem uma reunião às seis da manhã. Toda a
zona envolvente a Joanesburgo é um gigantesco filão de minério; com ouro,
ferro, carvão e outros, a serem extraídos às entranhas da terra, tornando-se o
berço de Joanesburgo e de cidades vizinhas.
Depois da reunião, Johan deixa-me por
fim numa zona comercial onde a minha família me virá buscar. A caminho de casa,
a entrada no núcleo da cidade é pontuado por montes que não são mais que o
resultado da actividade mineira e que o tempo e a vegetação vão lentamente
reclamando para si. Recentemente no entanto, um arrojado plano de reconversão
paisagística, tem procurado voltar a encher o labirinto de túneis das minas já
encerradas, com esse mesmo desperdício que repousa como montanhas artificiais
no exterior das mesmas.
Joanesburgo é à primeira vista, uma
cidade urbanisticamente interessante. De todo o tempo que lá passei, pareceu-me
sempre estranhamente agradável, apesar dos seus muros altos, com vedações eléctricas
e arame farpado, como uma coroa de espinhos que amarga e persistentemente,
recorda o medo com que se vive num país com uma elevadíssima taxa de
criminalidade. No entanto, a cidade é uma das mais verdes do mundo,
estendendo-se por uma área superior a 1500Km2 e toda essa mancha
arborizada é facilmente perceptível do alto das suas colinas.
A história de Joanesburgo confunde-se
com a história da corrida ao ouro, com o Apartheid
e com a história da nossa diáspora.
Tendo sido fundada em 1886, atingiu uma população
de 100 mil habitantes em apenas 14 anos, com o boato da existência de ouro na região
a atrair ‘garimpeiros’ de todo o mundo, o que de certa forma ajuda a explicar a
multiculturalidade deste país e dá outro significado à ideia de ‘nação arco-íris’.
Há uma grande comunidade portuguesa a viver
em Joanesburgo – muitos vindos de Moçambique aquando da independência do país –
e que segundo se conta, deram um contributo importante para a construção da
cidade. Também durante o período do Apartheid,
se consta que eram eles quem mais ajudava
a comunidade negra.
Foi logo em 1910 que o regime do Apartheid foi implementado, segregando brancos,
negros e indianos, numa catalogação estúpida em que o único critério era a cor
da pele… a estupidez era tal que compreendiam a existência de ‘camaleões’, ou
seja, pessoas que mudavam de cor de pele e que por isso mesmo podiam transitar
de categoria…
Apesar do fim do regime em 1990, a secreção
racial é ainda possível de se sentir nas ruas, se não de forma física, sem dúvida
de forma económica e social.
Durante aqueles dias, estive na eminência
de visitar Madiba (Nélson Mandela). A simples possibilidade de isso poder acontecer
era motivo suficiente para me preencher o espírito. Mandela é uma figura incontornável
da história da África do Sul e da luta pela igualdade racial. Um homem
inspirador! Infelizmente, o seu estado de saúde já não permite grandes
contactos e mesmo o simples gesto de assinar um livro é tarefa já difícil. A sua
esposa – Graça Machel – fez o favor por ele, e todo o interesse demonstrado no
meu projecto e a disponibilidade – mesmo não se tendo concretizado – para me
receber, foram uma recompensa inesperada.
O Shosholoza
Meyl – o comboio que liga Joanesburgo à Cidade do Cabo – está cheio para
meses… De alma cheia, compro novamente bilhete na companhia de autocarros de um
emigrante português e faço-me à estrada.
A África do Sul é um país mágico. Um país
de cor, de paisagens deslumbrantes, de prós e contras, mas que lentamente vai
construindo o seu caminho, assente na igualdade e na tolerância.
Um país para voltar!
05 maio, 2012
"Dr. Livingstone, I presume?"
Chego à Zâmbia, uma semana após a
conquista da primeira Taça das Confederações Africanas de futebol da sua história,
e os ecos de festejo ainda ressoam pelas ruas de Lusaka, onde se podem
encontrar vendedores de fotografias desse épico embate frente à Costa do Marfim
de Drogba e companhia, e onde se lê nos jornais, que prostitutas ofereceram
serviços gratuitos em celebração de tamanho triunfo… no autocarro que me leva a
Livingstone, assisto à reposição do jogo, que mesmo assim não parece elevar
sobremaneira a moral desta nação que tem a mais baixa esperança media de vida
de todo o continente – a rondar os 45 anos.
Todo o caminho é feito através de um
verde luxuriante, lembrando que 42% do país é área protegida. A chuva – como aconteceu
todo o tempo que aqui estive – marca presença assídua nem que seja por um breve
período de tempo, recordando a nossa posição geográfica e anunciando a chegada
da época das chuvas que arrefecem estes dias quentes e húmidos, neste cenário tropical.
As Cataratas Vitória são um dos mais
belos postais de África e muito da minha ‘flexão’ a oeste – nesta rota ‘norte-sul’
que bem poderia ter seguido a direito por Moçambique – a elas se deve, bem como
à ponte rodo-ferroviária que as percorre – ponte fronteiriça com o vizinho Zimbabué
sobre o rio Zambeze – presente desde sempre no meu imaginário ferroviário.
A
ponte fazia parte do auspicioso projecto de construção de uma ligação ferroviária
ininterrupta entre a Cidade do Cabo e o Cairo que (infelizmente!) nunca se
chegou a materializar, mas foi a sua construção em 1904 que trouxe a
Livingstone a prosperidade que hoje aufere, depois de ter herdado o nome do
primeiro europeu a ter o privilégio de contemplar as suas cataratas – o missionário
e explorador escocês, David Livingstone.
As cataratas em si, são uma espécie de
organismo vivo e em constante transformação devido ao desabamento de secções do
leito do rio, causados pela força das águas, como é explicado na breve
exposição à entrada para as mesmas.
Não tendo sido o caso, imagino todo
aquele turbilhão de água que se espalha pelo ar como ‘chuva fraca’ que se
transforma em aguaceiro à medida que nos aproximamos da linha da frente, como o
melhor remédio numa manhã de ressaca. Arco-íris múltiplos criados por um mar de
água que se abate sobre nós ao longo de todo o percurso como um verdadeiro
chuveiro, e que se intensifica em Março com a chegada da época das chuvas.
Uma das estórias que se ouve por aqui, é
que a subida do caudal do rio é de tal forma repentino e elevado, que muitas
vezes os animais – mesmo os de grande porte como elefantes ou hipopótamos – são
apanhados de surpresa e não conseguem evitar ser levados pela corrente,
despenhando-se de um altura de mais de 120 metros…
Livingstone é definitivamente o princípio
do fim. O ponto em que deixo de sentir estar em viagem, para mais parecer –
como todo o desconforto inerente… – que estou de ferias… O hostel onde me encontro está repleto de ocidentais que vêm em busca
de aventura e diversão – muitos deles apenas de passagem – vindos da não muito
distante África do Sul ou mais perto ainda, da Namíbia (outro dos destinos ‘radicais’
muito procurados por estes dias).
Seja como for, nem todos estão aqui com
os mesmos propósitos. Steven é holandês e encontra-se em trabalho junto das
comunidades locais, ajudando a criar os alicerces para um desenvolvimento local
sustentável. Além disso, é também um apaixonado pelas viagens e a sua fácil comunicação
e a partilha de opiniões torna-nos quase uma referência mútua no que às viagens
diz respeito.
Steven confessa-me ter um projecto para
uma viagem de bicicleta entre a Holanda e o Nepal para levar óculos de sol a
uma comunidade nos Himalaias que – viu num documentário – sofre com a exposição
a elevados níveis de radiação solar devido à altitude, o que leva em muitos
casos, à cegueira. Steven pretende conseguir o apoio de fabricantes de óculos de
sol que, por cada quilómetro percorrido, lhe ofereça um par de óculos para que
depois os possa doar. Um projecto incrível e inspirador!..
Mas Steven é também um aficionado dos
caminhos-de-ferro. Num desses dias, combinamos visitar juntos o museu ferroviário
local e dirigimo-nos para lá a pé através da linha. Na estação há movimento de
comboios. Locomotivas avançam e recuam para formar uma composição de mercadorias
e depois de alguns pedidos, temos autorização para subir à cabine do maquinista.
Parecemos duas crianças num parque de diversões! Pendurados sobre o nariz da
locomotiva ou conversando com o maquinista que nos confessa que as condições de
trabalho eram melhores quando a companhia pertencia ao estado, vamos juntando vagões
de mercadorias num vai e vem que mais parece uma espécie de videojogo.
A noite cai quando finalmente deixamos a
nossa ‘feira popular’ e a visita ao museu perdeu-se com o nosso atraso,
restando apenas voltar ao hostel com
a sensação de uma tarde bem passada.
05 abril, 2012
De Mombaça a Bagamoyo
África é um continente multifacetado, diverso e contrastante, onde cada fronteira é porta para uma nova e desconhecida África, e a entrada no Quénia não é excepção.
Uma África habituada a turistas de caquis, que se alojam em hotéis de cinco estrelas no interior dos parques naturais e que desconhecem por completo os perigos e as intrincadas características do norte do país, com as suas tribos e terras em disputa ou simplesmente com os receios inerentes à proximidade com a vizinha Somália. Uma África com outro tipo de infra-estruturas e com preços condizentes com essa condição de destino de safari. Uma África onde até os Massais já fazem compras no centro comercial, como pude constatar nos arredores de Mombaça
A par do Quénia, também o Uganda e a Tanzânia praticam preços exorbitantes no que toca a entradas em Reservas Naturais e similares, e à custa disso, muitos dos meus planos para esses países se alteram por ser incomportável para o meu orçamento, pagar 50 dólares por dia mesmo que seja apenas para atravessar o Serengeti…
Há quem considere haver três tipos de viajante: aquele que está constantemente preocupado com o orçamento e por isso não tira qualquer proveito das circunstancias da viagem; aquele que apesar de preocupado com o que gasta, está disponível para ajustar a sua viagem e aquilo que despende, em função do que vai encontrando e das experiências com que se depara, procurando tirar o máximo proveito dessas mesmas experiência, circunstancias e locais por onde vai passando; e aquele que não se preocupa nada com dinheiro, ou porque tem de sobra ou simplesmente porque quando acabar, acabou!..
Eu gosto de pensar e agir como quem se encontra no meio. No entanto, a minha paixão pelo mundo selvagem não é suficientemente forte que me faça entender valer a pena tal investimento. Gosto muito do mundo animal mas o que me traz aqui são as pessoas, e essas não as vou encontrar em nenhum safari.
No entanto – e depois dos dias difíceis na Etiópia – o Quénia devolve-me a alegria da ‘estrada’.
Sentado na parte de trás da pick-up, à saída de Moyale, sou interrogado pelos meus companheiros de ocasião;
- Porque é que estás a fazer isto?
- Para conhecer pessoas! Viajo para experienciar um pouco das suas vidas… tal como agora! – Respondo.
Apesar da admiração para com a minha resposta, há uma notável preocupação em me fazer sentir confortável e seguro. Após a viagem da fronteira até Wajir – e até à minha chegada a Mombaça – o condutor que me guia nesse primeiro troço, liga-me regularmente para se inteirar do meu estado e assegurar-se que cheguei sem problemas a Mombaça.
Uma diferença notória, para aquilo que havia sentido do outro lado da fronteira…
Instalo-me no hostel junto à praia, ainda um pouco longe do centro da cidade. O lugar ideal para para pôr a escrita em dia e para uns dias de descanso.
A vida no hostel é também propícia a novas amizades e num desses dias conheço Evalina, uma polaca a residir na Suécia e com uma história de vida surpreendente.
Evalina ficou órfã logo à nascença, deixada no hospital com um prognóstico de vida bastante reservado; tinha nascido apenas com metade do coração! Só uma arriscada e dispendiosa intervenção cirúrgica poderia devolver-lhe a esperança de vida, que acabaria por lhe sorrir quando um casal sueco que procurava uma criança para adoptar, a viu no hospital e se disponibilizou para financiar a operação, mesmo sabendo dos riscos inerentes.
Uma história de sobrevivência admirável, que uma vez mais faz valer a pena toda a viagem, pelo simples facto de a conhecer.
Os dias em Mombaça desenrolam-se de forma serena.
Dias que despertam quentes, a convidar a um mergulho matinal na piscina ou nas águas amenas do Índico, que se vem banhar nestas praias de areia branca onde palmeiras se debruçam preguiçosas, deixando cair os seus cocos para serem levados pelo mar e nascer noutro recanto deste paraíso tropical.
De Mombaça prossigo para a Tanzânia ao encontro de Marta, uma portuguesa a trabalhar na investigação da vacina para a Malária e que me espera em Bagamoyo.
Marta nasceu na Venezuela mas já viveu nos Estados Unidos, no Canadá, no Gana – onde fez pesquisa para o seu doutoramento – e na Alemanha, antes mesmo de se mudar para aqui.
Marta trabalha para o Instituto de Medicina Tropical de Londres num projecto de investigação que conta com o patrocínio de Bill Gates. Uma das curiosidades do seu trabalho passa por dissecar mosquitos, tendo ao seu encargo uma colónia inteira que precisa ser alimentada de sangue duas vezes por semana, sendo que num desses dias, um dos membros da equipa tem de disponibilizar o seu braço para umas quantas picadas… contudo, a vacina tem sido testada precisamente em crianças de Bagamoyo e com resultados bastante positivos – conta-me.
Quando deixo a Tanzânia, é com pena que o faço. O país parece-me extraordinário, sendo que o único problema é não ser propriamente barato…
Sendo esta uma ‘viagem de comboio’ – e há um mês que não tenho uma! – já sinto saudades do ritmo dos carris!
Depois de deixar Bagamoyo, a ideia é comprar bilhete para o ‘Kilimanjaro Express’ apenas para o final da semana e ‘esperar’ em Zanzibar até lá. O problema é que essa é uma opção cara! Cada travessia de ferry para a ilha é um dia do meu orçamento e a dormida na ilha não fica por menos do que isso, e como se não bastasse, neste momento o orçamento já não é o que era...
Assim sendo, nada melhor do que voltar rapidamente aos carris ligando Dar es Salaam a Livingstone, na confluência das fronteiras da Zâmbia, Botswana, Zimbabué e – ainda que um pouco mais distante – da Namíbia, onde o Zambeze – um dos maiores rios de África – tropeça de uma altura de cerca de 120 metros, proporcionando um dos mais belos postais de África.
Em contrapartida fica a promessa pessoal de regressar à Tanzânia para uma visita completa, que obrigatoriamente terá de incluir Zanzibar, o ferry no Tanganica – que tem uma história fantástica com mais de 70 anos e dois ‘resgates’ ao fundo do lago! – e o comboio que liga Dar até à confluência do Tanganica e do lago Vitoria.
África apega-se!
De todas as doenças endémicas e tropicais do continente, uma outra sem cura será certamente a paixão por esta terra e por esta gente. Ao princípio estranha-se, mas rapidamente se entranha sem que pareça haver grande remédio que não seja simplesmente cá voltar…
15 março, 2012
A Estação do Sr. Abeba
Durante a curta estadia em Adis, resolvo fazer uma visita à estação de caminhos-de-ferro – um edifício belo, de traços coloniais e amarelo baço – e fico à conversa com três dos seus funcionários. Apesar de há mais de dois anos não haver qualquer serviço de passageiros ou qualquer actividade ferroviária, os funcionários continuam a dirigir-se diariamente para os seus postos de trabalho, ainda que não haja nada mais que fazer do que esperar o ordenado no final do mês.
O senhor Abeba – chefe da estação – um homem simpático e bem-disposto, conta-me um pouco da história da companhia; a linha foi inaugurada em 1917 contando a sua construção com capital francês, tendo sido criada a ‘Compagnie Impériale du Chemin de Fer Franco-Éthiopien’, o que justifica o emprego do francês em todo o layout das estações, neste país que nunca foi colonizado. Nos anos 50, aquando da visita de Elizabeth II à Etiópia, Selassie recebeu de presente da rainha uma luxuosa composição presidencial, provida de ar condicionado, algo completamente inovador para a época;
- Foi o único país africano que a rainha visitou! Saiu daqui, esteve três horas em Nairobi e voo de regresso a Londres – conta Abeba com orgulho por entre gargalhadas e insinuações de um eventual caso amoroso entre a rainha e o imperador Etíope, que terá posteriormente viajado para Inglaterra cerca de 15 vezes, diz-me…
Recentemente os comboios deixaram de circular por profundas deficiências na linha. Da União Europeia surgiu um compromisso de ajuda, mas em dois anos, com todas as exigências de democracia e atrasos nas obras, os chineses tomaram o seu lugar e em menos de um ano construíram cerca de 300Km de linha – ainda que Abeba reconheça serem de qualidade duvidosa – a contrastar com os cinco deixados pelos europeus.
Antes de me despedir, o senhor Abeba – percebendo a minha paixão pelo universo ferroviário – leva-me a visitar o seu escritório; um mini museu ferroviário, repleto de fotografias da inauguração da linha e de pequenos presentes que vai recebendo de outros entusiastas um pouco por todo o mundo, e como lembrança de despedida, oferece-me antigos bilhetes dos comboios que em tempos por aqui circulavam.
06 março, 2012
Timkat em Aksum
Depois de quatro dias de caminhada nas Simien Mountains, regresso à aldeia de Debark – no sopé da montanha – para me encontrar com o funcionário do centro de acolhimento a visitantes e que me havia prometido estadia em sua casa para quando regressasse. Aagniche, seu amigo e guia de montanha, leva-me ao quarto e promete encontrar-me um camião ou conseguir um bilhete no autocarro de amanhã para Aksum, que regra geral, já vem cheio desde Gonder.
O quarto é uma pequena habitação numa espécie de condomínio, com uma casa de banho comum, que não é mais que um buraco coberto com troncos de madeira na qual deixaram uma pequena abertura. Não há chuveiro e a única forma de tomar banho é utilizando uma grande bacia metálica, o que me faz lembrar os westerns dos anos 80.
Volto a encontrar Aagniche na manhã seguinte e após algumas tentativas frustradas de conseguir um camião que me leve a Aksum, consegue convencer o revisor do autocarro a vender-me um bilhete e pelo preço normal – algo muito difícil de conseguir, como infelizmente venho a comprovar!
À chegada a Shire – enquanto procuro por uma ligação a Aksum – reencontro Ralf, um Irlandês a viver em Londres, que todos os anos escolhe um único país para viajar nos primeiros dois meses do ano, e com quem me havia cruzado em Debark no dia anterior.
Ralf é de um sentido de humor incrível! No final de cada refeição dizia satisfeito ao funcionário de serviço; ‘quem me dera que a minha mulher cozinhasse assim! Ela é a mulher mais bonita do mundo e estamos juntos há 18 anos, mas na primeira semana tive de lhe dizer: - por favor, não cozinhes mais!’
Chegamos a Aksum na véspera do Timkat (Epifania), as celebrações do baptismo de Jesus e a segunda maior festividade do calendário da Igreja Ortodoxa Etíope depois do Natal – a que chamam Leddet e que aqui ocorre entre 6 e 7 de Janeiro.
No que respeita ao calendário, a Etiópia é na verdade um universo à parte, possuindo o seu próprio calendário e sistema de hora, com uma diferença de 8 meses e 8 dias para o tradicional calendário gregoriano. O Ano Novo, por exemplo, celebra-se a 11 de Setembro… Têm13 meses num ano – todos com 30 dias e um último apenas com 5 (ou 6 de 4 em 4 anos) – e no que toca a horas; às nossas 7 da manhã são 1 da manhã e às nossas 19 é 1 da noite, tendo esta contagem que ver com o momento em que o sol nasce e se põe.
O único momento em que a Arca é apresentada em público é durante o Timkat. Por estes dias as ruas enchem-se de gente em cânticos e orações, numa cortejo colorido e animado, e que alguém no posto de turismo chegou a descrever como parecido com um Carnaval.
Homens de ar solene esperam alinhados em frente à igreja a chegado do ‘alto patriarca’ enquanto a procissão religiosa se organiza. A bandeira da Etiópia lidera uma comitiva de homens de hábitos vermelhos, defendidos por uma espécie de guarda-sol de cor e ornamentos idênticos. Cornetas ecoam no ar e uma multidão agitasse para ver a passagem da Arca. Mulheres de manto branco, jovens de uniforme púrpura e amarelo, tambores e altifalantes, cantam e dançam num frenesim quase de transe pelas ruas da cidade em direcção a um dos mosteiros, onde uma piscina improvisada se encheu para a bênção do dia seguinte.
Nessa manhã, a Arca é trazida até junto à água – completamente barrenta – onde uma multidão aguarda em redor e assim que esta é benzida, todos saltam para dentro da piscina, espalhando água por quantos se encontram em volta e enchendo garrafas que levam para casa e vão partilhando pelo caminho.
No meio de tanta euforia, um dos jovens que havia saltado para dentro da piscina acaba por falecer afogado e no dia seguinte, muitos são aqueles que procuram em vão resgatar o corpo ou esperar que este acabe por vir à superfície…
No entanto, Aksum é um lugar tranquilo e verdadeiramente agradável e depois das celebrações do Timkat, tudo parece voltar à normalidade. A sua avenida principal está repleta de pequenos cafés onde se joga pool – aparentemente um dos ‘desportos nacionais’ a par dos matraquilhos e do pingue-pongue – bares de sumo natural de frutos, lojas e cervejarias decoradas com as cores da respectiva companhia cervejeira.
Naquela que parece ser a praça central da cidade, debaixo de uma enorme e frondosa figueira, um mercado de cestos tradicionais e coloridos tem lugar, e na esplanada de um dos cafés que a circundam, debaixo do alpendre onde costureiros sentados às suas máquinas e engraxadores de sapatos se arruam, contemplo o passar de burros e camelos, e o ritmo calmo com que tudo tem lugar.
19 fevereiro, 2012
O Sudão de que não falam as notícias...
Wawa não é mais que um pequeno conjunto de casas perdidas na margem Este do Nilo.
Depois de deixarmos a fronteira, eu e Franz – o austríaco que comigo viajou no ferry desde Assuão – seguimos à procura do Templo de Soleb, situado na margem oposta deste minúsculo aglomerado de casas construídas sobre a areia e onde miúdos de pé descalço e roupa manchada de tanta brincadeira, correm ao nosso encontro pedindo por canetas, e eu fico impressionado com a simplicidade com que uma simples caneta pode deixar estes miúdos felizes, e sinto-me agradecido por estar aqui.
São elas mesmo que nos conduzem até à lukanda local – um tipo de acomodação simples, que muitas vezes não passam de um colchão numa simples cama de ferro, mas porventura, o único tipo de serviço que os sudaneses conseguem pagar.
A noite cai tranquila. Não há restaurantes, lojas de conveniência ou o que quer que seja onde possamos comprar comida, mas os nosso anfitriões parecem ter adivinhado a nossa chegada e a nossa fome, e pouco tempo depois vemo-los chegar, carregando sacos de pão e lentilhas com que nos deliciamos à ténue luz da lua que se acendeu sobre o pátio aberto para as estrelas, deste hotel no meio do nada.
A manhã seguinte desperta na quietude deste quintal à beira rio, povoado por homens montando burros e mulheres que mal se distinguem por entre o verde de um jardim de legumes e palmeiras.
O Sudão é tudo aquilo que as notícias não contam! Um lugar seguro, belo e sem dúvida, o país com as pessoas mais afectuosas que encontrei até agora! Pessoas de trato fácil, que nos tomam como iguais – não como turistas endinheirados! – que nos guiam pelas ruas quando precisamos de ir a algum sitio ou que correm ao nosso encontro se nos esquecemos de alguma coisa no seu café ou restaurante; que nos dão boleia para onde queremos ir mesmo que esse não seja o seu destino; pessoas que me oferecem uma corrida de táxi dizendo que sou convidado; que me oferecem tremoços quando os tento comprar; que pagam o autocarro quando explico que quero seguir à boleia e que se param no caminho fazem questão de oferecer um chá.
A paisagem de desertos, oásis e povoações de mercados coloridos é absolutamente deslumbrante! Além disso o Sudão tem mais pirâmides que o Egipto, ainda que mais pequenas e em pior estado de conservação. Karima e Neru são dois dos locais onde é possível encontrar estas pirâmides Núbias e ao contrário do Egipto, estas não estão cercadas por muros altos ou qualquer vedação, ainda que se tenha de pagar para as ver, mesmo que isso seja possível da estrada… a grande maioria foi completamente lapidada por exploradores sem escrúpulos e saqueadores que acreditavam haver ouro no topo de cada pirâmide. Ainda assim, a experiência de caminhar por entre este sólidos ancestrais – que mais parecem castelos de areia feitos por crianças na praia e onde o quotidiano habitual não sofreu qualquer perturbação turística ou especulativa – nada fica a dever ao Cairo.
Em Nuri por exemplo, fico com a certeza de que se o camelo é o animal do deserto, o burro é o animal do oásis. Carroças puxadas por estes animais circulam por todo o lado e apanhar boleia numa delas faz de nós verdadeiras atracções para as pessoas locais que riem à nossa passagem.
O único inconveniente do Sudão é mesmo a burocracia. De cada vez que chegamos a uma nova cidade para pernoitar, é necessário ir à esquadra da polícia local para um registo e, em todos os check-points de estrada, mostrar a ‘permissão de viagem’ que aparentemente deveríamos ter em cópia para deixar com a polícia. Mas mesmo aí, as pessoas são prestáveis e simpáticas, procurando sempre ajudar, como aconteceu num desses check-points de estrada – quando já parecia ser impossível conseguir uma boleia – onde a polícia fez parar um camião, explicando o que pretendíamos e para onde nos dirigíamos.
Já sozinho, a última dessas boleias leva-me até Kassala. Um lugar simplesmente atordoante!
Com mais de 400 mil habitantes, é uma das maiores cidades do Sudão e ponto de encontro de todas as tribos da Núbia. Palco decorado na perfeição pelas montanhas de Taka que a rodeiam e que no meu imaginário é um retrato de África. Como se todo um continente se encontrasse aqui.
A proximidade com a Eritreia faz destas ruas um enorme souk a céu aberto, onde as personagens mais desconcertantes se cruzam; homens de espada; indivíduos de roupas andrajosas; tribos que se caracterizam por andar constantemente com um pente pendurado no cabelo ou mulheres de enormes brincos ao nariz provenientes da Eritreia, de trajes coloridos ou debruados a um amarelo forte e mãos pintadas, formam um mosaico estonteante de cor e exotismo, que vendedores de fruta, vegetais e frutos secos ajudam a compor.
Ainda que sob um calor abrasador, Kassala é o sítio ideal para terminar a visita ao Sudão deixando-nos perder e pelas suas ruas agitadas, parando para um café picante da Eritreia num dos seus inúmeros cafés, ou espreitando por entre os edifícios e portas entreabertas, onde sem querer se descobre um cinema improvisado, onde uma pequena multidão assiste à matiné de Domingo.
30 janeiro, 2012
Cairo, Excitante Cairo, Apaixonante...
O Cairo é sem qualquer redundância, a cidade que nunca dorme. Ruas de lojas super iluminadas e restaurantes de comida rápida, bem como alguns cafés, estão abertos 24 horas por dia.
No hostel conheço Amir, Côcô, Kira e Atle, todos de procedências distintas e que me convidam para uma noitada.
Amir é suíço mas com descendência sudanesa e a facilidade em falar árabe, faz dele nosso guia pelas ruas da cidade. Atle por sua vez é sueco e há dois meses que está estacionado no Cairo onde suspendeu os seus planos de viagem pela Ásia, precisamente de onde vem Côcô, que apesar da ausência de uma mão, se encontra numa volta ao mundo em bicicleta desde Taiwan, algo que Kira está igualmente a fazer, mas de avião.
Um concerto de música rock e um club de Jazz que muita concorrência faria a qualquer bar ou discoteca em Portugal, são tudo aquilo que não esperava encontrar logo na minha primeira noite no Cairo. Ainda por cima, uma free night, significando isso que tudo é oferta dentro do bar, algo que nunca tinha visto em Portugal!
Apesar de não constarmos de qualquer guest list, o porteiro diz que abrirá uma excepção para nós. Mesmo não sendo o tipo de sítio que gosto de frequentar enquanto viajo, não deixa de ser curioso constatar que não há quaisquer restrições de indumentária ou comportamento, podendo assemelhar-se com qualquer bar europeu.
Aos poucos vou-me habituando à confusão da cidade.
Numa dessas noites saio sozinho para um chá num típico café de Shisha. Está apinhado de gente que joga gamão ou dominó, fuma shisha ou simplesmente troca dois dedos de conversa e as mulheres fazem igualmente parte deste ambiente, partilhando o mesmo espaço e comportamentos dos homens.
As ruas recônditas onde estas expressões sociais têm lugar, têm uma luz de bairro apaixonante e o ambiente cosmopolita e local é magnífico. A música de fundo e o interminável buzinar do trânsito do Cairo, que mais do que outra coisa parece um passatempo nacional, compõem o cenário.
Subitamente surge um miúdo ´fakir’ que brinca literalmente, com o fogo, fazendo apagar duas tochas em chamas com a boca.
Toda a cidade é um circo de cor, luz, som e exotismo.
Depois de um fim-de-semana as voltas pelo Museu do Cairo e pelas ruas da cidade, é altura de procurar pelo visto para o Sudão e posteriormente para a Etiópia. Supostamente o visto sudanês é extremamente moroso, burocrático e dispendioso e é com esse sentimento que me dirijo à embaixada, cruzando uma praça Tahrir completamente tranquila e onde já só restam algumas tendas montadas a um canto da praça, pouco restando que lembre a revolução de Janeiro ou dos incidentes de Novembro.
O aspecto da embaixada do Sudão é de uma garagem cheia de gente.
A entrada faz-se por um portão de correr ferrugento. Há três guichés e uma fotocopiadora a um canto da sala com um funcionário próprio e onde também é possível tirar fotos, como rapidamente venho a constatar, resolvendo in loco todas as necessidades burocráticas exigidas. Na verdade – e apesar do aspecto ‘pré-histórico’ do local – o serviço parece bastante eficiente. Vou precisar de fotocópias do passaporte e do formulário de requisição do visto e de duas fotografias, e o que é certo é que consigo obter tudo isso em 10 minutos e no mesmo local.
Nas paredes desta ‘garagem promovida a embaixada’, vitrinas com comida e artefactos que deduzo serem parte do quotidiano do país, decoram as paredes.
As pessoas presentes na sala são de uma África que ainda está para se me revelar. Faces e trajes completamente diferentes das que se podem ver nos egípcios, que tão pouco se consideram parte de África.
Mas antes de tudo isto sou informado da necessidade de uma carta de recomendação da minha embaixada no Cairo.
Apanho um táxi e ando às voltas pela ilha Zamalek em busca de um pedaço de Portugal no Egipto e que apesar de me disponibilizarem a carta relativamente rápido, me cobram 25 euros pela mesma… nada melhor para me sentir em casa!..
De volta à embaixada do Sudão, o funcionário de serviço junto à fotocopiadora diz-me para me colocar junto à parede e com uma maquina fotográfica compacta, tira três fotos que passa para o computador, deixando-me escolher de entre as três antes de as recortar pelo rosto e mandar imprimir, tudo de forma muito ‘caseira’ mas convenhamos, eficiente.
Completos todos os requisitos, mandam-me regressar no dia seguinte. Como não acredito que esteja pronto volto apenas dois dias depois e na verdade verifico que o visto apresenta a data do dia em que o solicitei, significando isso muito provavelmente que de facto já estava pronto no dia anterior.
O funcionário entrega-me o passaporte e eu nem quero acreditar;
- Já está?! Já tenho o visto?!
- Sim! Pode comprovar…
Poucos dias depois da ida à embaixada do Sudão, a situação na praça Tahrir volta a agitar-se. Aparentemente, um suposto manifestante que pacificamente protestava sentado no meio da rua impedindo a passagem do carro do Ministro do Interior, foi puxado pelas forças militares e agredido brutalmente, ali mesmo e sem qualquer explicação.
O povo quer o poder nas mãos do povo e exige um governo de transição e união nacional enquanto o demorado processo eleitoral decorre.
Depois destes incidentes os protestos intensificam-se e a brutalidade com que o exército reage também. Quando investe sobre os manifestantes é de arma apontada e sem qualquer sentido de ordem. Não importando se é homem, mulher ou criança, se está indefeso ou não…
A Tahrir está sempre repleta de gente e à medida que as noticias e espalham mais gente ainda se junta em solidariedade e protesto. Pelas ruas do Cairo – e já não apenas na praça – manifestações sucedem-se reclamando a transição de poder e grupos de mulheres protestam igualmente contra a forma selvagem com que o exército tratou uma mulher, semi-despida e aparentemente inanimada, num dos dias de protesto.
Uma das mais importantes bibliotecas do Cairo foi incendiada.
Num desses dias conheço um jovem veterinário egípcio e que se mostra completamente desapontado pelo rumo que os protestos estão a levar. Acha que há mão da mossad ou da CIA por detrás deste despoletar de violência e na verdade, quando se circula pela praça, somo varias vezes interrogados sobre de onde somos e o que fazemos ali, num clima de verdadeira desconfiança.
Para impedir o avanço dos manifestantes, o exército vai levantando muros de blocos de betão, encerrando algumas das principais artérias da cidade. Num dos dias de avanço sobre os manifestantes, removeram e queimaram todas as tendas que ainda restavam na praça mas, como se pode ler em algumas t-shirts à venda em redor da praça; ‘o poder das pessoas é mais forte que as pessoas no poder’ e as tendas estão de volta ao centro da praça, numa demonstração de força e determinação admiráveis. Recusam desmobilizar e eu acho fantástica a forma como estas pessoas lutam por aquilo em que acreditam!
As eleições prosseguem e segundo me contam, há uma felicidade contagiante em cada mesa de voto por todo o Egipto. Uma alegria espelhada nas faces de um povo que vê finalmente uma oportunidade para escolher livremente o seu futuro. Contudo, todo o processo levará meses e é extremamente difícil de compreender como Ernesto – um uruguaio a viver em Luxor há mais de 1 ano – me explica, dizendo que nem ele entende muito bem todo o processo, quanto mais estas pessoas que na sua maioria são analfabetas. Na verdade, há mais de 40 partidas a concorrer a estas eleições e é possível verificar nos cartazes eleitorais, que cada partido tem um símbolo pelo qual pode ser reconhecido por quem não sabe ler, sendo assim possível votar no ‘partido da bola’ ou no do ‘trator’, apenas para referir alguns.
Enquanto tudo isto decorre o povo no Cairo, porque aparentemente no resto do pais a informação não chega da mesma maneira e nem os festejos pelo derrube de Mubarak parecem ter sido particularmente efusivos, exige que o exercito transfira o poder para as mãos dos civis. A sensação é de que o exército tem imenso poder do qual não se quer abrir mão. Talvez a queda de Mubarak tenha sido apenas fruto da pressão militar para o substituir porque, como me conta uma espanhola a residir no Cairo há mais de 4 anos; o exército não nutria particular simpatia por Mubarak e além disso este já não duraria muitos mais anos no poder devido à sua idade e aos seus problemas de saúde. Os três últimos presidentes egípcios foram todos generais e esta talvez fosse a oportunidade esperada para fazer cair Mubarak e substitui-lo por alguém da sua preferência.
O exército no Egipto tem tanto poder que detém 40% da economia do país, sendo detentora de negócios por conta própria como fábricas, lojas e até mesmo gasolineiras onde emprega os recrutas como mão-de-obra barata.
Há duas semanas que espero por uma encomenda vinda de Portugal. Os meus companheiros no hostel – especialmente Atle, que há dois meses anda por aqui e que já tentou por mais de uma vez receber um novo cartão de credito vindo da Suécia – dizem-me que será muito difícil receber o que quer que seja pois o serviço postal alem de pouco eficiente é extremamente corrupto.
Os dias vão-se passando sem que haja novidades. Em Portugal tinham-me informando que demoraria cerca de cinco dias úteis mas esses há muito que já caducaram e eu resolvo ir à procura por todas as estações de correio.
Ao segundo dia de procura – depois de me terem informado do local que recebia toda a correspondência vinda de fora do pais – tenho finalmente informação de que a encomenda de encontra cá e que foi enviada no dia anterior para uma outra estação, o que demorará – uma distancia de 20 minutos a pé! – dois ou três dias… É fim de semana natalício e tenho a sensação de poder estar para receber um presente de natal depois de todos estes dias de espera…
Durante esta ultima semana em que estive quase para desistir de esperar pela encomenda e seguir para sul, reencontro Matt e Tom que acabam de chegar ao Cairo. Quando os encontro estão na companhia de um casal polaco a fazer a mesma viagem que nós e dizem-me que no dia anterior tinham conhecido três outros sul-africanos que terminaram aqui a sua jornada de bicicleta desde a Cidade do Cabo e com quem ficaram de se encontrar ao final do dia para celebrar tal acontecimento.
Nessa noite, juntos comemorando o fim da viagem desses três novos companheiros – que deixam a promessa de retribuir quando eu chegar à Cidade do Cabo – Matt e Tom desafiam-me a ficar por mais uns dias e a passar com eles o Natal, o que me parece a melhor das ideias.
Enquanto estico os dias há espera do natal, Amir convida-me para o acompanhar num treino de capoeira que um professor francês disponibiliza num ginásio bem perto do hostel onde estamos. No final do treino, do qual fui apenas espectador, conheço Nico, um uruguaio há meio ano no país em serviço para uma ONG espanhola e que espera hoje mesmo a chegada de um amigo de Maiorca.
A minha facilidade para falar espanhol gera empatia entre nós, até porque Andres não fala nada de inglês. Surpreendentemente, há pessoas com quem falamos pela primeira vez, mas que é como se fossem nossos amigos desde sempre, e este é um desses casos. Numa dessas noites, são eles que me convidam para uma pequena caminhada nocturna na companhia de Vera, uma amiga espanhola que há quatro veio para o Cairo, onde casou e reside, e que conhece cada recanto deste labirinto de bazares, mesquitas, cheiros, cores e sons, e que sentiu de perto a turbulência dos dias da revolução, tendo sido forçada a mudar-se para casa de um familiar do marido, ele também, bastante activo nos movimentos revolucionários.
Ao hostel por estes dias chega também Josh. Um alemão que veio à boleia desde Hamburgo, e para onde pretende regressar da mesma maneira, e se recusa revelar a idade dizendo apenas;
- Sou um cidadão do mundo! Sem idade ou nacionalidade.
Josh é ele também um apaixonado pelo mundo árabe, e depois de umas lições na Alemanha, partiu para Sumatra – no Iémen – para trabalhar com uma ONG tendo ficado completamente enamorado pelo país e pela sua gente.
Na noite da sua chegada ao Cairo está a festejar 100 dias de estrada e saímos para uma cerveja a que se juntam uns amigos egípcios. Durante a conversa, Josh diz não aceitar que se defina a revolução egípcia como ‘revolução de Facebook’, ainda que reconheça a importância que essa ferramenta representou durante esses dias e na qual, muitos iemenitas fizeram circular as mensagens que os amigos egípcios não tinham como publicar.
O fim-de-semana natalício chega por fim. É a primeira vez que passo o natal fora de casa mas a companhia não podia ser melhor! E para se juntar à festa acaba de chegar Thami, um outro sul-africano que aqui termina também a sua viagem – by any means – e Steve, um inglês a dar formação militar no Iraque, e que para provar como o mundo é minúsculo, me pergunta se conheço o Pedro (‘on the road’), um outro português que acaba de regressar de uma viagem de ida e volta à boleia até Singapura e que para além de nos conhecermos frutos das nossas voltas é quase meu vizinho, e que Steve alojou por uns dias no Iraque;
- O Pedro?! Claro que conheço…
À falta de uma boa ‘farrapeira’ para o jantar do dia 25 – até porque o jantar do dia anterior foi frango (e por ser dia de festa!) – Matt e Tom encarregam-se de um risotto, e de gorro vermelho na cabeça, voltamos a despedir-nos num longo abraço, com a promessa de reencontro.
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