30 janeiro, 2012

Cairo, Excitante Cairo, Apaixonante...


O Cairo é sem qualquer redundância, a cidade que nunca dorme. Ruas de lojas super iluminadas e restaurantes de comida rápida, bem como alguns cafés, estão abertos 24 horas por dia.
No hostel conheço Amir, Côcô, Kira e Atle, todos de procedências distintas e que me convidam para uma noitada.
Amir é suíço mas com descendência sudanesa e a facilidade em falar árabe, faz dele nosso guia pelas ruas da cidade. Atle por sua vez é sueco e há dois meses que está estacionado no Cairo onde suspendeu os seus planos de viagem pela Ásia, precisamente de onde vem Côcô, que apesar da ausência de uma mão, se encontra numa volta ao mundo em bicicleta desde Taiwan, algo que Kira está igualmente a fazer, mas de avião.
Um concerto de música rock e um club de Jazz que muita concorrência faria a qualquer bar ou discoteca em Portugal, são tudo aquilo que não esperava encontrar logo na minha primeira noite no Cairo. Ainda por cima, uma free night, significando isso que tudo é oferta dentro do bar, algo que nunca tinha visto em Portugal!
Apesar de não constarmos de qualquer guest list, o porteiro diz que abrirá uma excepção para nós. Mesmo não sendo o tipo de sítio que gosto de frequentar enquanto viajo, não deixa de ser curioso constatar que não há quaisquer restrições de indumentária ou comportamento, podendo assemelhar-se com qualquer bar europeu.
Aos poucos vou-me habituando à confusão da cidade.
Numa dessas noites saio sozinho para um chá num típico café de Shisha. Está apinhado de gente que joga gamão ou dominó, fuma shisha ou simplesmente troca dois dedos de conversa e as mulheres fazem igualmente parte deste ambiente, partilhando o mesmo espaço e comportamentos dos homens.
As ruas recônditas onde estas expressões sociais têm lugar, têm uma luz de bairro apaixonante e o ambiente cosmopolita e local é magnífico. A música de fundo e o interminável buzinar do trânsito do Cairo, que mais do que outra coisa parece um passatempo nacional, compõem o cenário.
Subitamente surge um miúdo ´fakir’ que brinca literalmente, com o fogo, fazendo apagar duas tochas em chamas com a boca.
Toda a cidade é um circo de cor, luz, som e exotismo.
Depois de um fim-de-semana as voltas pelo Museu do Cairo e pelas ruas da cidade, é altura de procurar pelo visto para o Sudão e posteriormente para a Etiópia. Supostamente o visto sudanês é extremamente moroso, burocrático e dispendioso e é com esse sentimento que me dirijo à embaixada, cruzando uma praça Tahrir completamente tranquila e onde já só restam algumas tendas montadas a um canto da praça, pouco restando que lembre a revolução de Janeiro ou dos incidentes de Novembro.
O aspecto da embaixada do Sudão é de uma garagem cheia de gente.
A entrada faz-se por um portão de correr ferrugento. Há três guichés e uma fotocopiadora a um canto da sala com um funcionário próprio e onde também é possível tirar fotos, como rapidamente venho a constatar, resolvendo in loco todas as necessidades burocráticas exigidas. Na verdade – e apesar do aspecto ‘pré-histórico’ do local – o serviço parece bastante eficiente. Vou precisar de fotocópias do passaporte e do formulário de requisição do visto e de duas fotografias, e o que é certo é que consigo obter tudo isso em 10 minutos e no mesmo local.
Nas paredes desta ‘garagem promovida a embaixada’, vitrinas com comida e artefactos que deduzo serem parte do quotidiano do país, decoram as paredes.
As pessoas presentes na sala são de uma África que ainda está para se me revelar. Faces e trajes completamente diferentes das que se podem ver nos egípcios, que tão pouco se consideram parte de África.
Mas antes de tudo isto sou informado da necessidade de uma carta de recomendação da minha embaixada no Cairo.
Apanho um táxi e ando às voltas pela ilha Zamalek em busca de um pedaço de Portugal no Egipto e que apesar de me disponibilizarem a carta relativamente rápido, me cobram 25 euros pela mesma… nada melhor para me sentir em casa!..
De volta à embaixada do Sudão, o funcionário de serviço junto à fotocopiadora diz-me para me colocar junto à parede e com uma maquina fotográfica compacta, tira três fotos que passa para o computador, deixando-me escolher de entre as três antes de as recortar pelo rosto e mandar imprimir, tudo de forma muito ‘caseira’ mas convenhamos, eficiente.
Completos todos os requisitos, mandam-me regressar no dia seguinte. Como não acredito que esteja pronto volto apenas dois dias depois e na verdade verifico que o visto apresenta a data do dia em que o solicitei, significando isso muito provavelmente que de facto já estava pronto no dia anterior.
O funcionário entrega-me o passaporte e eu nem quero acreditar;
- Já está?! Já tenho o visto?!
- Sim! Pode comprovar…
Poucos dias depois da ida à embaixada do Sudão, a situação na praça Tahrir volta a agitar-se. Aparentemente, um suposto manifestante que pacificamente protestava sentado no meio da rua impedindo a passagem do carro do Ministro do Interior, foi puxado pelas forças militares e agredido brutalmente, ali mesmo e sem qualquer explicação.
O povo quer o poder nas mãos do povo e exige um governo de transição e união nacional enquanto o demorado processo eleitoral decorre.
Depois destes incidentes os protestos intensificam-se e a brutalidade com que o exército reage também. Quando investe sobre os manifestantes é de arma apontada e sem qualquer sentido de ordem. Não importando se é homem, mulher ou criança, se está indefeso ou não…
A Tahrir está sempre repleta de gente e à medida que as noticias e espalham mais gente ainda se junta em solidariedade e protesto. Pelas ruas do Cairo – e já não apenas na praça – manifestações sucedem-se reclamando a transição de poder e grupos de mulheres protestam igualmente contra a forma selvagem com que o exército tratou uma mulher, semi-despida e aparentemente inanimada, num dos dias de protesto.
Uma das mais importantes bibliotecas do Cairo foi incendiada.
Num desses dias conheço um jovem veterinário egípcio e que se mostra completamente desapontado pelo rumo que os protestos estão a levar. Acha que há mão da mossad ou da CIA por detrás deste despoletar de violência e na verdade, quando se circula pela praça, somo varias vezes interrogados sobre de onde somos e o que fazemos ali, num clima de verdadeira desconfiança.
Para impedir o avanço dos manifestantes, o exército vai levantando muros de blocos de betão, encerrando algumas das principais artérias da cidade. Num dos dias de avanço sobre os manifestantes, removeram e queimaram todas as tendas que ainda restavam na praça mas, como se pode ler em algumas t-shirts à venda em redor da praça; ‘o poder das pessoas é mais forte que as pessoas no poder’ e as tendas estão de volta ao centro da praça, numa demonstração de força e determinação admiráveis. Recusam desmobilizar e eu acho fantástica a forma como estas pessoas lutam por aquilo em que acreditam!
As eleições prosseguem e segundo me contam, há uma felicidade contagiante em cada mesa de voto por todo o Egipto. Uma alegria espelhada nas faces de um povo que vê finalmente uma oportunidade para escolher livremente o seu futuro. Contudo, todo o processo levará meses e é extremamente difícil de compreender como Ernesto – um uruguaio a viver em Luxor há mais de 1 ano – me explica, dizendo que nem ele entende muito bem todo o processo, quanto mais estas pessoas que na sua maioria são analfabetas. Na verdade, há mais de 40 partidas a concorrer a estas eleições e é possível verificar nos cartazes eleitorais, que cada partido tem um símbolo pelo qual pode ser reconhecido por quem não sabe ler, sendo assim possível votar no ‘partido da bola’ ou no do ‘trator’, apenas para referir alguns.
Enquanto tudo isto decorre o povo no Cairo, porque aparentemente no resto do pais a informação não chega da mesma maneira e nem os festejos pelo derrube de Mubarak parecem ter sido particularmente efusivos, exige que o exercito transfira o poder para as mãos dos civis. A sensação é de que o exército tem imenso poder do qual não se quer abrir mão. Talvez a queda de Mubarak tenha sido apenas fruto da pressão militar para o substituir porque, como me conta uma espanhola a residir no Cairo há mais de 4 anos; o exército não nutria particular simpatia por Mubarak e além disso este já não duraria muitos mais anos no poder devido à sua idade e aos seus problemas de saúde. Os três últimos presidentes egípcios foram todos generais e esta talvez fosse a oportunidade esperada para fazer cair Mubarak e substitui-lo por alguém da sua preferência.
O exército no Egipto tem tanto poder que detém 40% da economia do país, sendo detentora de negócios por conta própria como fábricas, lojas e até mesmo gasolineiras onde emprega os recrutas como mão-de-obra barata.
Há duas semanas que espero por uma encomenda vinda de Portugal. Os meus companheiros no hostel – especialmente Atle, que há dois meses anda por aqui e que já tentou por mais de uma vez receber um novo cartão de credito vindo da Suécia – dizem-me que será muito difícil receber o que quer que seja pois o serviço postal alem de pouco eficiente é extremamente corrupto.
Os dias vão-se passando sem que haja novidades. Em Portugal tinham-me informando que demoraria cerca de cinco dias úteis mas esses há muito que já caducaram e eu resolvo ir à procura por todas as estações de correio.
Ao segundo dia de procura – depois de me terem informado do local que recebia toda a correspondência vinda de fora do pais – tenho finalmente informação de que a encomenda de encontra cá e que foi enviada no dia anterior para uma outra estação, o que demorará – uma distancia de 20 minutos a pé! – dois ou três dias… É fim de semana natalício e tenho a sensação de poder estar para receber um presente de natal depois de todos estes dias de espera…
Durante esta ultima semana em que estive quase para desistir de esperar pela encomenda e seguir para sul, reencontro Matt e Tom que acabam de chegar ao Cairo. Quando os encontro estão na companhia de um casal polaco a fazer a mesma viagem que nós e dizem-me que no dia anterior tinham conhecido três outros sul-africanos que terminaram aqui a sua jornada de bicicleta desde a Cidade do Cabo e com quem ficaram de se encontrar ao final do dia para celebrar tal acontecimento.
Nessa noite, juntos comemorando o fim da viagem desses três novos companheiros – que deixam a promessa de retribuir quando eu chegar à Cidade do Cabo – Matt e Tom desafiam-me a ficar por mais uns dias e a passar com eles o Natal, o que me parece a melhor das ideias.
Enquanto estico os dias há espera do natal, Amir convida-me para o acompanhar num treino de capoeira que um professor francês disponibiliza num ginásio bem perto do hostel onde estamos. No final do treino, do qual fui apenas espectador, conheço Nico, um uruguaio há meio ano no país em serviço para uma ONG espanhola e que espera hoje mesmo a chegada de um amigo de Maiorca.
A minha facilidade para falar espanhol gera empatia entre nós, até porque Andres não fala nada de inglês. Surpreendentemente, há pessoas com quem falamos pela primeira vez, mas que é como se fossem nossos amigos desde sempre, e este é um desses casos. Numa dessas noites, são eles que me convidam para uma pequena caminhada nocturna na companhia de Vera, uma amiga espanhola que há quatro veio para o Cairo, onde casou e reside, e que conhece cada recanto deste labirinto de bazares, mesquitas, cheiros, cores e sons, e que sentiu de perto a turbulência dos dias da revolução, tendo sido forçada a mudar-se para casa de um familiar do marido, ele também, bastante activo nos movimentos revolucionários.
Ao hostel por estes dias chega também Josh. Um alemão que veio à boleia desde Hamburgo, e para onde pretende regressar da mesma maneira, e se recusa revelar a idade dizendo apenas;
- Sou um cidadão do mundo! Sem idade ou nacionalidade.
Josh é ele também um apaixonado pelo mundo árabe, e depois de umas lições na Alemanha, partiu para Sumatra – no Iémen – para trabalhar com uma ONG tendo ficado completamente enamorado pelo país e pela sua gente.
Na noite da sua chegada ao Cairo está a festejar 100 dias de estrada e saímos para uma cerveja a que se juntam uns amigos egípcios. Durante a conversa, Josh diz não aceitar que se defina a revolução egípcia como ‘revolução de Facebook’, ainda que reconheça a importância que essa ferramenta representou durante esses dias e na qual, muitos iemenitas fizeram circular as mensagens que os amigos egípcios não tinham como publicar.
O fim-de-semana natalício chega por fim. É a primeira vez que passo o natal fora de casa mas a companhia não podia ser melhor! E para se juntar à festa acaba de chegar Thami, um outro sul-africano que aqui termina também a sua viagem – by any means – e Steve, um inglês a dar formação militar no Iraque, e que para provar como o mundo é minúsculo, me pergunta se conheço o Pedro (‘on the road’), um outro português que acaba de regressar de uma viagem de ida e volta à boleia até Singapura e que para além de nos conhecermos frutos das nossas voltas é quase meu vizinho, e que Steve alojou por uns dias no Iraque;
- O Pedro?! Claro que conheço…
À falta de uma boa ‘farrapeira’ para o jantar do dia 25 – até porque o jantar do dia anterior foi frango (e por ser dia de festa!) – Matt e Tom encarregam-se de um risotto, e de gorro vermelho na cabeça, voltamos a despedir-nos num longo abraço, com a promessa de reencontro.

2 comentários:

  1. Olá Mateus (que se lixe a cerimónia!). Continua a ser empolgante seguir a sua viagem. Estive algum tempo sem pc, por avaria e só hoje, 18FEV.é que voltei à sua pista. Desejo que td continue a correr bem.
    Abrc - Alberto

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